sábado, 27 de dezembro de 2014

Prezado Eduardo - Cap. 6 - O AMIGO QUE CHEGA

O AMIGO QUE CHEGA

Do aeroporto de Champaing o senhor Dosch, que nos aguardava, levou-nos direto para sua casa onde nos aguardava um jantar com a família dele. Convidar para jantar é uma coisa tipicamente americana, só que dessa vez exageraram, não? pois ainda nem tínhamos passado pelo nosso hotel para deixar nossas bagagens. O casal tinha quatro filhos sendo dois rapazes e duas moças. Todos na Universidade de Illinois famosíssima em todo o mundo sendo que uma boa parte dela possuía um Campus na vizinha cidade de Urbana, cuja divisão de território com Champaing era apenas uma rua. Na realidade, parecia-me uma única cidade. Por outro lado, tivemos uma surpresa interessante pois o Sr Dosh informou-nos que havia reservado um alojamento para nós no Campus, em Urbana.

 Não ficamos muito satisfeitos porque estávamos em condições de pagar por um hotel e não ficar num alojamento onde não havia ninguém instalado devido ao período de férias. Mas, afinal de contas seriam somente sete dias pois as aulas estavam prestes a começar e assim forçosamente deveríamos abandonar o dormitório após aquele período. Dormíamos no Campus e a maioria das vezes  o Sr Dosch nos apanhava às sete e quinze para irmos ao escritório do USNS.


Em Columbus, o serviço foi ótimo e a cidade deixou muito a desejar, já em Champaing/Urbana as cidades apesar se pequenas eram ótimas pois estávamos praticamente dentro dentro de um Centro Universitário que nos proporcionava uma séria de coisas boas. Quanto ao trabalho o pessoal de escritório não nos esperava para serviço ou treinamento. Fomos para lá numa emergência pois nosso roteiro original era Jackson, Mississip, Entretanto,  naquela época,  Jackson estava sendo alvo de distúrbios racistas e o pessoal do Survey ficou  temerosos sobre nossa ida até lá. Claro que seria um tanto arriscado consideando, que Plauto era negro. Assim, em Champaing, Ilinois, passamos uma boa parte do tempo estudando na biblioteca e com algumas viagens de campo onde acompanhávamos técnicos especializados em construção de abrigos para futura instalação de equipamentos. Tivemos assim, os nossos momentos de construção civil que aliás foi muito interessante pois eles já carregavam na caminhonete de trabalho todo mo material já pré cortado e na realidade só montávamos. A dupla que viajou conosco era muito divertida  e alem do trabalho ouvíamos muitas piadas eivadas de novas palavras, basicamente palavrões...
Numa das noites que saímos para jantar, nos levaram a um restaurante onde a banda que tocava era constituída só de mulheres e em determinado momento elas tiraram a blusa e o sutiã e tocavam assim, em topless. Houve muita piada e risadas entre os presentes mas as garotas em nenhum momento foram mencionadas ou siquer tocadas. Lembro-me bem da música "Sunny" que enquanto elas tocavam nos levavam a altura.

No segundo fim de semana, quando já havíamos deixado o Campus e estávamos instalados  num hotel, resolvemos no sábado pela manhã tomar um trem e passar algum tempo em Chicago que estava situada  a pouco mais de 100 quilômetros.
Com uma mochila e um mapa chegamos às dez horas da manhã em Chicago,depois de uma agradável viagem de trem equipado com ar condicionado e janelas panorâmicas.  Caminhamos da Central Station pela rua K  até ao Loop. Numa boa parte da cidade o metrô é superficial fazendo um retorno em forma de anel no Loop. Há alí inúmeras linhas e conexões do metrô.

O movimento sábado pela manhã era intenso e pelas indicação que haviam nos fornecido em Champaing resolvemos nos hospedar no Hotel La Salle, na rua do mesmo nome. Praticamente usamos o hotel só para dormir pois após deixarmos as mochilas  caminhamos por uma boa parte  de Chicago. Uma das coisas que me chamou a atenção é que entramos em  em dois cinemas ditos pornográficos pois aquele tipo de sala não existia no Brasil. Lembre-se que estávos em 1970...

Plauto, por sua vez, tinha alguns receios meio que cômicos como o fato de falarmos em Português um com um outro pois poderiam nos confundir com algum mafioso .....A situação se agravou quando um senhor de meia idade, ao nos ver conversando numa estação de metrô, nos abordou e perguntou a nossa nacionalidade como que puxando conversa. Meio desconfiados dissemos que éramos brasileiros e ele  começou então a misturar Inglês com Italiano ao tentar nos dizer que o dia estava  muito "caldo" (quente em italiano). Respondemos cortesmente e fomos nos afastando. Plauto estava pálido e resmungava: será que ele não é mafioso?.......

Depois de entramos em vários bares e restaurantes a locais com anúncios de "Go Go Girls" chegamos ao hotel cansadíssimos. Lembro do taxi que nos levou de volta: era um tipo de carro que aqui no Brasil quando ainda rodavam, chamávamos de guarda-louça.

No domingo, pela manhã, a agitação recomeçou, só que desta vez já estávamos carregando a mochila pois à tardinha voltaríamos para Champaing e o "check out" do hotel em Chicago era às doze horas. Caminhamos um longo tempo numa imensa Avenida  à beira do Lago Míchigan imenso e calmo.

Na segunda-feira já de volta a Champaing, eu estava estudando na biblioteca do Distrito quando fui informado que  que havia uma ligação de Washington para mim. Na outra ponta da linha estava a Mrs. Brown  informando:" O senhor Pinto acaba de chegar do Brasil e vai encontra-los em quatro dias em Champaign. Ele agora vai falar com o senhor....Foi muito agradável para mim e Plauto ouvir a sua voz, Edú. Dentro de quatro dias estaríamos os três reunidos novamente! Vc parecia extremamente nervoso, ávido por falar Português e de encontrar alguém conhecido.

Planejamos encontra-lo no aeroporto mas nossa programação não deu certo porque nos surgiu uma viagem extra ao sub distrito de Oakland, nos suburbios de Chicago pois lá eles estavam desenvolvendo um trabalho  de mapeamento de áreas inundáveis e aquele assunto interessava-me muito. Só que que vimos e aprendemos lá, valeu nossa estadia no Illinois. Alem de ter participado das técnicas utilizadas, eu trouxe uma grande quantidade de material didático.

Apesar de estarmos ainda no verão a enorme quantidade de plátanos que havia por lá já parecia sentir a aproximação do outono e despejavam  aos nossos pés uma imensa torrente de folhas douradas. Que espetáculo lindo, inesquecível! Confesso-lhe que quando lembro-me de lugares como aquele fico cada vez mais convencido  que não nasci para viver num País tropical e as lágrimas brotam dos meus olhos.

A ansiedade que você sentia para nos encontrar também tomava conta de nós e foi tranquilizante e alegre para todos o nosso encontro no hall do hotel. Estivemos algumas horas conversando e ouvíamos atentamente coisas novas do Brasil. Um País muito otimista, diria você.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Prezado Eduardo - Cap. 5 - GOOD BYE COLUMBUS

GOOD BYE COLUMBUS          

Como todo leonino eu não poderia deixar esquecer meu aniversário e desta forma, o dia quatro de agosto foi festejado no Restaurante Cahiqui,longe dos amigos e da família. O Cahique é um dos restaurantes mais interessantes  que conheci. Ele tem a forma de uma enorme canoa ancorada na zona leste de Columbus. O seu interior é constituído de vários ambientes formando cada um deles aprazíveis recantos  tropicais com direito  a areia de praia, palmeiras e vegetação rasteira O teto é uma imensa abóboda de um azul profundo que volta e meia escurece ao mesmo tempo que sopra um vento forte transmitindo uma nítida impressão de uma verdadeira tempestade tropical. Um barato!
Os drinks e pratos são servidos em cascas de coco oriundas da Polinésia por belíssimas nativas e ao som de Hula hula.

Um fato interessante aconteceu comigo naquele restaurante: Quando solicitei um drink antes do jantar o bartender olhou para mim, um tanto desconfiado,e perguntou com uma cara de ingenuidade: "Você tem mais de dezoito anos, não?" Bem, como relatei antes, naquele dia eu estava completando vinte e oito anos, ainda sem qualquer fio de cabelo branco, uma gravata fininha e seis quilos a mais. certamente eu não aparentava a idade real mas,de modo algum tinha a aparência de dezoito.

Columbus continuava uma cidade sem graça mas, as constantes viagens de campo amenizavam a situação. Numa determinada semana Plauto viajou com Fred e eu com Peter.  Foi a primeira vez que Plauto e eu não viajamos juntos. De certa forma foi gratificante pois durante o período fiquei absolutamente sem falar Português. Creio que o fato de não falar a minha primeira língua me fez ficar completamente desvinculado de minhas origens (sic) e tive uma notável sensação de liberdade. Peter foi um extraordinário companheiro de viagem e enquanto dirigia a "station wagon" falávamos alguns detalhes de nossas vidas. Ele tinha a minha idade, já era casado e era pai de uma menininha. Sua cidade de orígem era Boston e  isso era fácil de detectar pois tinha um certo sotaque britânico. havia conhecido sua esposa num bar do "Holliday Inn". Como  estavam casados ha pouco tempo, ainda construíam uma casa sendo que Mary o ajudava a cobrir as despesas trabalhando como recepcionista num restaurante parte do dia. Durante a viagem ele ligou para ela duas ou três  vezes. Estando eu, naquela época, frequentando uma Igreja Protestante com certa regularidade, lembro que fiquei meio sem jeito quando Peter me disse que era agnóstico. Soou um pouco estranho ouvir isso de um americano.....
Os planos de Peter eram de permanecer ainda por algum tempo no USNS em Columbus muto embora já fora convidado a assumir outros postos tais como  a chefia adjunta do escritório no estado de Washington.
Peter e eu nos tornamos amigos mas, lamentavelmente, é uma das pessoas que dificilmente vou tornar a ver pois perdemos totalmente o contato. Entretanto, como o mundo dá muitas voltas, talvez algum dia venhamos a coletar amostras de fundo de rios....
Quando regressamo a Columbus Plauto já chegara e contou-me que a semana  na qual ele não teve a oportunidade de falar Português foi uma ótima experiência para ele pois o fato veio a comprovar que seu Inglês era suficientemente bom


Por falar em Plauto agora estou me lembrando de um fato curioso acontecido com ele na última semana que estivemos em Columbus. Num determinado  fim de tarde fomos jantar  no  Restaurante Circles que ficava  a aproximadamente trezentos metros de distância do Hotel Olentangy Inn. Após,voltamos despreocupadamente e com certeza tínhamos excedido  na cerveja como que já comemorando, por antecipação, nossa partida de Columbus. Em vez de ficarmos,  como de hábito,  algum tempo no hall do hotel resolvemos subir e assistir um pouco de televisão. Dei tchau a Plauto e entrei no meu quarto. Creio que assistí a TV  não mais de dez minutos e caí num sono profundo. Acordei às sete horas da manhã do dia seguinte com alguém batendo na porta. Levantei-me completamente bem disposto e pensei: "Quem será? Não pode ser o Plauto pois normalmente eu o acordo...
Quando abri a porta vi que Plauto estava com uma cara de ter dormido muito pouco e ... realmente tinha, Quando entrou no meu quarto foi logo me contando algo como se fosse uma confissão. Contou-me que na noite anterior em vez de assistir televisão resolveu ler um pouco."Quase não li pois estava com muito sono e logo adormeci."Quando já estava em sono profundo, alguém bateu insistentemente na porta. Pensando que era eu levantou-se cambaleando de sono e vestindo somente uma cueca tipo samba-canção. Quando abriu a porta e deu decara com uma bela loira. Instintivamente deu um salto para o lado da porta e ficou somente com o rosto aparecendo. Ela o olhou com um jeito muito sério e disse: "Será que o senhor pode ajudar-me a abrir a porta do meu quarto? Eu não estou conseguindo....." Ainda perplexo disse para ela aguardar um momento enquanto colocava uma calça e uma camisa. Quando voltou a atende-la, já não havia mais ninguém no corredor. Ele concluiu que que sozinha ou com a ajuda de outra pessoa, havia finalmente conseguido abrir a porta do quarto dela. Quando ele estava novamente pegando no sono ouviu novamente alguém batendo na porta. Dessa vez pensou que era eu mas, quando abriu a porta ali estava novamente a loira! Só que agora ela estava vestida com uma camisola extremamente transparente. Antes que Plauto dissesse qualquer coisa,ela  empurrou suavemente a porta e na medida em que foi penetrando no quarto dele disse"Eu vim agradecer. Já consegui abrir minha porta" Ele ainda estava boquiaberto quando ela deitou-na na cama e disse "screw me" ou seja fóde-me!..
Ainda meio desconfiado chegou mais perto da cama. Deitou-se sobre ela e segundo ele a terra tremeu!!! A mulher era um fogo só e tinha uma pele lisinha e bronzeada como se houvesse chegado da praia. Foi uma trepada atrás da outra entremeadas de cochilos. Fizeram de tudo.  Saiu do quarto mais ou menos quinze para às sete,vestindo evidentemente só a camisola, em direção ao quarto dela. Antes de sair, disse a ele: " Obrigado, tive uma noite de Messalina!"


Finalmente chegou o dia de deixarmos Columbus. Foi na tarde de um sábado cinzento, tão cinzento como no de chegada. Voamos pela Ozark para Champaing, Illlinois para mais uma etapa do treinamento.







Próximo capítulo: O AMIGO QUE CHEGA ( a partir de 9 de janeiro)

domingo, 21 de dezembro de 2014

Prezado Eduardo - Cap. 4 - NEW YORK! NEW YORK!

 NEW YORK! NEW YORK!

Columbus, Ohio, pelo Programa que teríamos a cumprir era o lugar mais próximo de New York que estaríamos durante as próximas etapas do treinamento. Evidentemente não poderíamos perder a oportunida de passar um fim de semana na Grande Metrópole, por uns poucos dól    ares.err
E ainda mais:Conhecer Linda Marie, minha antiga "pen pal" nos tempos de minha adolescência. Ela existia sim! Durante o tempo que frequentamos o Washington International Center, ao mencionar esse fato para uma das voluntárias do Centro, ela se propôs a localizar e número do telefone de Linda e ainda confirmar-me o endereço. Não sei se havia t falado masmantive correspondência com ela no período de 1958 até 1962 na base de 1 carta por mês. Agora chegava a vez de concretizarmos um sonho que acalentamos durante anos: um encontro face a face.
Foi assim que numa sexta-feira, após o encerramento do expediente, partimos Plau e eu  num voo da TWA rumo ao aeroporto de La Guardia onde Linda deveria estar nos aguardando conforme prévio entendimento via telefone. Depois de percorrermos muitos corredores e escadas rolantes encontramos a senhora Seeck e Linda Marie Seeck. Parecia incrível que depois de oito anos já sem troca de cartas eis que encontro com Linda, ao vivo!
No terminal de La Guardia. No princípio estranhei a formalidade com que nos receberam: Um simples aperto de mão. que partiu de mim, contrariando o hábito americano que quem estende a mão primeiro, se quiser. E ainda por cima com a mãe! Ora, já tínhamos ambos quase trinta anos...De qualquer forma já estávamos ali. No mínimo,  Linda  nos indicaria um hote adequado em New York. No terminal tomamos um ônibus que atravessaria o rio Hudson e iria em direção a Jersey City que ficava distante um par de quilômetros de New York e poederia ser considerado um de seus subúrbios, embora noutro estado. No ônibus, Linda  mencionou que havia reservado um Hotel a meio caminho da casa dela e de Manhatan. Desembarcamos em Jersey City e rumamos para o hotel indicado. Era lamentável. O Hotel estava situado numa zona de porto riquenhos "da pesada". Lembra "West Side Story?"..... Bem, mas o jeito era ficar ali mesmo pois já havia anoitecido e me parecia que Linda estava anciosa por nos deixar acomodados e rumar para casa dela. Assim foi feito. Antes, combinamos que ela passaria sábado pela manhã no Hotel para, juntos, passarmos o dia em New York. Manhatan, melhor dito.

Às nove horas da manhã do dia seguinte encontramos Linda no lobby do Hotel. Desta vez ela estava só e bem mais descontraída. Pedimos pedimos para ela tentar conseguir um outro hotel pois as condições onde estávamos eram sofriveis. Preferencialmente em Manhattan. Disse-nos que seria possível, sim, desde que estivéssemos dispostos a pagar um pouco mais. Então ela dirigiu-se a um telefone público, fez algumas ligações e voltou dizendo que os hoteis de preço médio em Manhattan estavam todos lotados. Só havia vagas em locais bem mais caros. Diante dos fatos, concordamos e ela fez reservas no Hotel Hilton. O custo era de cincoenta e três dólares para um apartamento com duas camas, banheiro, TV, ar condicionado, frigo bar e uma vista muito boa de Manhattan.

Assim, saímos de Jersey City em direção a New York, via sub way. Da estação de descida, fomos de táxi até o Hotel e o trânsito não me pareceu complicado como esperávamos. Tranquilamente chegamos ao Hilton. A recepção já era algo de assombroso pois havia mais de vinte balcões para atendimento destinados aos hóspedes que chegavam. A recepcionista que nos atendeu, ao ver que éramos brasileiros, perguntou se havíamos chegado de São Paulo e ensaiou algams palavras em Português.
Fomos instalados no no quadragésimo quinto andar, num quarto relmente muito bom e com uma vista deslumbrante de boa parte de Manhattan e após nos refrescarmos e trocarmos de roupa Linda sugeriu que àquela hora da manhã a melhor opção para conhecermos  New York num tempo tão curto, era tomarmos um ônibus de turismo.O ônibus nos conduziu a locais essencialmente turísticos: Terminal de barcos que conduziam à Estátua da Liberdade Edifício das Nações Unidas,China Town, Bairro dos Boêmios,Central Park, Centro da Cidade onde estavam sendo construídas duas torres que seriam os dois prédios mais altos de New York. Culminamos o tour com uma interessantíssima visita ao Empire State Building que em 1970 era o Edifício mais alto do mundo. Lá no topo uma vista deslumbrante, ressaltando-se o Edifício da Chrysler um perfeito modelo neo clássico. Eu sei que tudo isso que estou te relatando parece uma imensa caretice, entretanto, confesso que foi gostoso e uma tremenda curtição.

Por volta das dezoito horas estávamos regressando ao Hilton. Subimos ao apartamento e Plauto, face aos olhares e algumas trocas de carinho que ele presenciou entre eu e Linda entendeu a situação e desceu para o térreo. Subiu de volta às vinte horas e com muita discreção  deu um toque rápido na campainha. Quando abri a porta provavelmente eu e ela já estávamos recompostos mas era fácil notar as caras de cama. Pela primeira vez eu havia transado com uma americana. Maravilhoso!
Jantamos os três num dos restaurantes do próprio hotel. Um jantar longo,conversado, discutido, curtido ao máximo.

Por volta das vinte e três horas acompanhamos Linda até a Rodoviária de Port Authority onde ela tomou o ônibus para Jersey City, sem antes nos informar, com detalhes, que no Domingo pela manhã deveríamos tomar o mesmo ônibus para Jersy City onde Teríamos um almoço com a família. Pedi para ela ficar comigo no Hiltou mas ela não concordou. De certa forma ainda prestava contas à mãe e de forma alguma poderia passar a noite fora.

Ante s de voltarmos para o Hotel resolvemos ver um pouco de Manhattan por nossa conta e perambulamos até às três horas da manhã. New York com certez não dormia. A Broadway e ma Times Square era algo indescritível. Comprava-se e vendia-se tudo em várias línguas e era impossível viver-plenamente aquilo tudo. Alí realmente parecia o Centro Do Mundo e tudo aquilo que eu viaera potencializado pelos planetas posicionados na minha nona Casa Astral

Uma das cenas bizarras que me recordo foi quando em determinado momento avistamos numa porta da Rua Quarenta e Seis um cartaz que dizia: "Restaurante Brasileiro", "Vende-se Calaças Lee" - segundo piso. Subimos um andar e um senhor muito cortês nos disse num Português sem sotaque: "Desculpem, mas estamos fechado. Caindo de cansados, caímos mesmo na cama! Às sete horas da manhã o despertador automático programável nos chamou. Tomamos o brekfast , pagamos a conta e lá estávamos nós novamente em Port Authority. Tudo correndo normalmente.Algum tempo depois já estávamos descendo na para onde Linda nos havia indicado. Ela já estava nos esperando de carro. Ficamos meio sem jeito, um olhando para o outro e trocamos um rápido beijo antes de segui para a casa da família dela.

Não sei me explicar a sensação que tive ao chegar na rua Chesnut número noventa em um. Quantas e quantas vezes eu havia subscritado aquele endereço no nosso envelope verde e amarelo. Lindo olhou fixamente para mim e exclamou: Sim 91 Chesnut Street realmente existe!!!

A família de Linda era o que se podia chamar de classe média, descendentes de imigrantes checos. Era constituída  pelo Sr e Sra Swenska,por seus filhos Harry,Linda e Gloria, alem da avó materna. Só a partir daquele momento foi que comecei a entender a dinâmica da família. O pai e a mãe não pareciam viver bem um com o outro.Linda me disse que ele tinha uma síndrome mas, não entrou em detalhes e a mãe parecia que sustentava a casa com o salário  que fazia como consultora de moda numa famosa grife novaiorquina. Muito embora o senhor Svenska não houvesse sentado a mesa para almoçar conosco, ele , em momento algum se mostrou descortês Ao contrário, parecia extremamente feliz.
Antes do almoço a Sra Svenska fez questão que fossemos à Missa. Ela sabia que eu era episcopaliano mas, não importava, eles eram católicos devotos.

Ao regressarmos da Missa, nos convidaram para sentar à mesa para o almoço. Colocaram-me sentado entre a Avó e a mãe da Linda.. O assunto era que eu deveria considerar a hipótese de fixar residência nos Estados Unidos talve até converter-me ao catolicismo,
Mais tarde, Plauto me disse que nunca havia visto uma intimação de casamento daquela maneira.

Não sei como mesmo depois daquele dia a minha nona casa astral permitiu que em Novembro de 1970 eu regressasse ao Brasil para ter que viver ou sbreviver o período de março, abril e maio de 1976. Talvez a sétima casa exolique.

Regressamos à 17:30 para La Guardia e desta vez a sra. Svenska estva novamente presente. A despedida foi tão formal quanto à chegada. Engraçados esses americanos: ainda ontem Linda e eu estivemos na cama e hoje só um aperto de mão, uma despedida formal embora eu estivesse louco para  dar mais um beijo em Linda.


Já,de novo, a bordo do quadrijato da TWA em direção a Columbos. curtia o beijo que Glória lhe dera na face. e eu.... bem, eu não sei o que curtia. estava perplexo. Algo me dizia para não voltar para o Brasil.



Próximo capítulo:  GOOD BYE COLUMBUS

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Prezado Eduardo - Cap. 3 - NO RITMO AMERICANO

NO RITMO AMERICANO

Mergulhamos fundo no trabalho desde a primeira semana. Os americanos trabalhavam das 7:30 da manhã até às 4:15 da tarde com intervalo d e 1 hora para o almoço. Tomávamos nosso "breakfast" e almoçávamos na cafeteria do próprio Edifício Federal,onde estavam centralizados todos os serviços da União. No jantar variávamos entre vários restaurantes mas, o preferido era a Blueboard Cafeteria" onde a comida era excelente e os preços razoáveis. Como bolsistas recebíamos US$713.00 por mês, valor superior ao salário que tínhamos no Brasil, que cobria perfeitamente nossas despesas básicas e ainda sobrava.
O trabalho desenvolvia-se tanto no escritório como no campo e começamos, deste modo, a  absorver uma grande quantidade de conhecimentos teóricos e tecnologia de excelência  em campo.Devido a boa qualidade dos trabalhos Plauto e eu escrevíamos seguidamente relatos para nossos colegas brasileiros e sobre nossa intenção de colocar em prática no Brasil aquilo que aprendíamos. Lembro que escrevi para você com muito entusiasmo e aguardando sua breve chegada para juntar-se a nós nos trabalhos que desenvolvíamos. Naquela época Edú eu ainda não havia me dado conta que o seu tipo de interesse no trabalho  era voltado para o lado teórico enquanto que para mim estava ótima a dupla teórico e prático. Para você não seria dessa forma mas, quando me dei conta disso já era tarde, Mais uma vez, desculpe-me.

As pessoas com quem , aos poucos, fomos fomos formando amizade mostravam-se curiosas e perplexas sobre o Brasil. Os personagens brasileiros mais conhecidos na época eram Pelé e Sergio Mendes. Perguntavam sobre as "selvas brasileiras", a estrada Transamazônica, extinção da classe média, Rio de Janeiro, guerrilha,torturas.... Explicávamos também que não tínhamos feras soltas nas ruas, que Pelé era um excelente jogador de futebol, que Sergio Mendes era um grande músico, que realmente a Transamazônica, que o rio de Janeiro era lindo, etc, etc, etc.....

Viajamos praticamente por todo o estado do Kentucky em serviços de campo. Numa dessas viagens estávamos, num domingo à tarde, num hotel em Paducah, quando assistimos pela televisão o gol de Carlos Alberto que deu ao Brasil mais um título de "Campeão do Mundo em Futebol".Que sensação estranha! Nenhum foguetório,nem um som de batucada....Plauto, entusiasmado comentou: "Somos tricampeões, a Taça definitivamente é nossa!" Bem, uma semana depois começavam a chegar cartas e recortes de jornais sobre a grande conquista: " o País pára","a Taça é nossa", "feriado nacional", "pra frente Brasil","ninguém segura esse País".... O ôba ôba parecia total! Os americanos não entendiam bem tal entusiasmo, principalmente um inusitado "feriado nacional" para comemorar um campeonato. De nossa parte desejávamos colaborar para continuar a tocar o País para frente,

Que ilusão!

Mal podíamos imaginar o que iríamos encontrar no futuro próximo.... mais precisamente após quinze de março de 1974: politicagem, corrupção aparecendo, destruição de sonhos e bem.....Não estavam soltas as bruxas  mas sim o Bruxo!
Após o estágio no Kentucky rumamos para Columbus, Ohio onde estava prevista uma nova etapa de estudos: monitoramento da qualidade das águas e sedimentometria. Não foi um período bom. Não falo em relação ao  trabalho que na realidade era interessantíssimo mas a cidade não tinha, no nosso ponto de vista, um aspecto acolhedor. Tinha um tom cinza mas, diferente daquele que Woody Allen mostra em "Manhatan" e do cinza de Buenos Aires que é lindo! tudo muito diferente da agradável e acolhedora Louisville. Por isso resolvemos não ficar hospedados no hotel a nós destinado, no centro da cidade. preferímos um hotel mais acolhedor e próximo ao escritório do USNS. Foi nesse período que tive alguns problemas de saúde, com relação a uma gastrite,  felizmente,  superados com com uma consulta médica e um medicamento de última geração.
Foi numa daquelas noites passadas no hotel "Olentangy Inn" que sonhei que vinha por uma estrada numa "pick up" do trabalho e  de repente ao cruzar uma estrada de ferro fomos abalroados por um trem, sendo que nosso motorista não tinha resistido à gravidade dos ferimentos. Coincidência ou não,um mês depois quando já estávamos em Champaing, Illinois, recebi uma carta do Dr Tertuliano onde ele relatava que nosso motorista Pedro havia falecido. De morte natural. Mas justamente no dia que tive o sonho. Pura coincidência sim, diria o Dr Felício Santiago.

Como no Kentucky, também viajamos por todo o Estado de Ohio, onde desenvolvi-se um intenso monitoramento da qualidade das águas. Assim, estivemos em Toledo,Athens,Ashtabula,Independence,Defiance,Evansport, Bowling Green e Cleveland..

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Prezado Eduardo - Cap. 2 - A VIAGEM

A VIAGEM

Creio que nossa extrema dedicação ao trabalho, a nossa excelente proficiência na língua inglesa e a chatice do Tertuliano fizeram com que Evett tomasse a decisão de apressar nossa viagem aos Estados Unidos para realizar nosso " On The Job Training" no United States Nature Survey conforme estava previsto no nosso contrato de trabalho com aquela Instituição. Assim, logo que vocês chegaram de volta ao Rio, onde então estava situada a Matriz da GEOHIDRO  Evett dirigiu-se ao nosso Diretor -Presidente, Dr Limeira, e acertou com ele os detalhes finais do nosso treinamento.

Algumas semanas depois você me chamou pelo rádioVHF (naquele tempo ainda não existia DDD entre Rio e Porto Alegre) para informar-me que a viagem minha e do Plauto já estava acertada para os primeiros dias de maio. Só faltava enviar nossas fotos para emissão dos passaportes. Ora, quando dei essa notícia a Tertuliano, ele, embora tentasse, não conseguiu disfarçar seu desapontamento. Tentei argumentar mas, em vão. Ele sempre vinha com a mesma resposta: a sua situação funcional aqui na empresa é de simples consultoria e não há vínculo empregatício. Essa falta de vínculo não permite que o senhor viaje na qualidade de bolsista. Com o Dr Plauto não haverá problema pois ele é contratado com carteira de trabalho assinada. O senhor sabe que eu não posso assinar a sua porque essa é a política da Empresa desde o ano passado.

Embora todos aqueles percalços eu tinha quase certeza de que a viagem aconteceria e de alguma maneira Tertuliano percebeu aquilo. Talvez para me aporrinhar mais ele chamou Plauto e disse: o senhor vai mas o Dr Ronaldo não. Se ele continuar tentando tenho certeza de que na hora de providenciarem o Passaporte a empresa vai se dar conta e vão barra-lo. Foi então que você me chamou novamente pelo rádio para informar-me que já estava com os dois passaportes em mão de modo que Plauto e eu deveríamos  partir para os Estados Unidos dentro de dez dias. Sabedor disso, Tertuliano tentou uma última cartada: Tudo bem mas, eu não posso conceder-lhe uma passagem aérea para o Rio pelo nosso velho motivo: o senhor não é empregado regular mas um simples consultor. Voltei então ao VHF e você disse-me com a maior tranquilidade: então, compre uma passagem de ônibus e venha para o Rio para apanhar sua passagem para os Estados Unidos que já está inclusive emitida! Quando Tertuliano soube do inevitável e talvez para evitar atritos com a Presidência da empresa resolveu conceder-me uma passagem aérea, só de ida, para o Rio. Assim, eu não tinha mais dúvidas de que realmente iria realizar meu treinamento no United States Nature Survey, o USNS.

No sábado, 3 de maio de 1970,fui a Santa Maria despedir-me de meus pais e do resto da família,  no domingo após meu regresso a Porto Alegre o Carlos Renato e sua irmã Heléne ofereceram-me um jantar de despedida. Segunda feira, dia 5, parti para o Rio junto com Plauto no Electra das onze horas e às treze horas  encontramos você e Clélia, sua namorada, que nos esperavam. Do Santos Dumont rumamos para a Urca onde se localizava nossa Matriz. De imediato comecei a conhecer as pessoas com as quais, até então, só havia me comunicado por correspondência e rádio. Conheci o Dr Perez, Dr Ávila, D. Luíza, Hermínio e outros. Ah, também  conheci o Professor Rocha Lima sobre quem você já tinha  me falado e destacado seus profundos conhecimentos sobre hidrologia estocástica. Sobre o professor Rocha Lima você também havia mencionado um diálogo entre ele e Tertuliano sobre estocástica. Ao cabo de alguns minutos, o diálogo virou monólogo onde só Tertuliano gesticulava e falava. Quando finalmente o professor desvencilhou-se da "conversação", disse a você, de chofre: "meu Deus quanta ignorância!"  Àquela conversa dos dois Hermínio referiu-se da seguinte forma: Professor Rocha Lima e Dr Tertuliano: "O diálogo impossível".

No Rio, Evett insistiu que Plauto e eu seríamos seus hóspedes até a partida para os Estados Unidos que se daria em dois dias. Evett e Lennie foram anfitriões perfeitos. Os dois dias foram bastante corridos com compra de dólares, visitas técnicas ao consulado.... Na casa de câmbio, o funcionário ficou impressionado com a pouca quantidade de moeda comprada: duzentos dólares cada um. Mas, o que fazer? Não tínhamos mais moeda nacional para trocar e a nossa esperança era que logo que chegássemos receberíamos uma parcela da bolsa.
Finalmente, na quarta-feira à noite Plauto e eu partíamos do Galeão num voo da Braniff cada um com uma mala, duzentos dólares, a cara e a coragem.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Prezado Eduardo - Cap. 1 (cada capítulo é publicado às segundas, quartas e sextas feiras)

Prezado Eduardo:

É bem possível que você não tome conhecimento desta, entretanto, mesmo com essa incerteza resolvi escrever-lhe um pouco para recordar e um pouco para contar as novas. Novas.... mas que novas?Para Vc creio que até elas não são tão novas assim pois, sempre o considerei uma pessoa extremamente lúcida e avançada para que nada ou quase nada que acontecer nos próximos cinquenta anos sejam novidades para você. São tantas as coisa que tenho para comentar que achei melhor  dividir esta, em partes.


PORTO ALEGRE 39ºC
Não sei se você lembra da data em que nos conhecemos. Eu sim, Lá se vão muitos anos. Foi em meados de fevereiro de 1970 quando você veio a Porto Alegre junto com o Evett. Lembra? Eram dias escaldantes do clima "temperado"  do Rio Grande do Sul. Lá estávos  seis pessoas durante aquela canícula, numa sala sem ar condicionado desenvolvendo estudos de "curvas de vazão" sob a eficiente supervisão do Evett e a aporrinhação do Dr Tertuliano, meu chefe. Ah! o Tertuliano! Logo que viu você pela primeira vez disse-me: Este rapaz deve beber muito! É magro... mas, veja a barriga dele! Só mais tarde vim a saber que nem chopp Vc bebia devido a uma hepatite contraída quando garoto. Aliás, o Tertuliano era um caso à parte. Não sei se você lembra que durante aquele período de estudos o Plauto e eu fomos obrigados a falar mal de nós mesmos? Sim, porque alem de técnicos tínhamos que ser tradutores pois ele não sabia falar Inglês. Traduzíamos para o Evett todas as asneiras que vinham à cabeça do Tertuliano. Mas, que remédio se não o fizéssemos?Ele era o chefe e nós precisávamos  muito daquela consultoria onde o assunto "curvas chave" era crucial.

Naquela época, em matéria de dinheiro você estava numa situação muito difícil, igual a mim. Em virtude disso, perguntou-me se seria possível eu hospeda-lo por  no meu apartamento. Concordei pois o Mauro que dividia o imóvel comigo comigo estava em férias e fora da cidade.

Desta forma, você foi meu hóspede durante cinco dias no bairro da Azenha que hoje muitos ainda tem preconceito. Durante o período de sua hospedagem trocamos muitas ideias. Embora o assunto predominante fosse o trabalho e as perspectivas futuras, claro que conversávamos sobre nossas vidas particulares, sonhos, metas...

Naquela época seu papo já era muito bom e agradável e você vivia repetindo que eu era um sujeito muito espontâneo e sincero. Talvez até demais...Alem do trabalho você mostrou ser um profundo conhecedor de música, teatro e cinema, que também eram minhas paixões. Lembro que ao mostrar-lhe minhas fitas gravads e reproduzidas num "minicassete" você se mostrou por demais entusiasmado com a música! I say a little prayer" com a Dione Warwick Volta e meia vc pedia: "põe a negrona de novo". Na mesma época você me "apresentou" Burt Baccharah e suas maravilhosas composições. O LP estava em sua mala! Quanto à sua composição para violão, ainda a tenho gravada.

No fim de semana a temperatura aumentou muito. No sábado estava realmente um calor escaldante, sobre o que você comentou"calor assim nem no Rio...talvez só em Bangú" Vislumbrei então uma solução para amainar os 39 graus: No Cine Baltimore estva sendo exibido em Cinerama o musical "Oliver". A sala tinha ar condicionado perfeito e o musical era mesmo muito bom. e com um som estereofônico impecável. Ouvi o seguinte comentário seu:"Acho que no Rio não tem isso não!"


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