Prezado Eduardo:
É bem possível que você não tome conhecimento desta, entretanto, mesmo com essa incerteza resolvi escrever-lhe um pouco para recordar e um pouco para contar as novas. Novas.... mas que novas?Para Vc creio que até elas não são tão novas assim pois, sempre o considerei uma pessoa extremamente lúcida e avançada para que nada ou quase nada que acontecer nos próximos cinquenta anos sejam novidades para você. São tantas as coisa que tenho para comentar que achei melhor dividir esta, em partes.
PORTO ALEGRE 39ºC
Não sei se você lembra da data em que nos conhecemos. Eu sim, Lá se vão muitos anos. Foi em meados de fevereiro de 1970 quando você veio a Porto Alegre junto com o Evett. Lembra? Eram dias escaldantes do clima "temperado" do Rio Grande do Sul. Lá estávos seis pessoas durante aquela canícula, numa sala sem ar condicionado desenvolvendo estudos de "curvas de vazão" sob a eficiente supervisão do Evett e a aporrinhação do Dr Tertuliano, meu chefe. Ah! o Tertuliano! Logo que viu você pela primeira vez disse-me: Este rapaz deve beber muito! É magro... mas, veja a barriga dele! Só mais tarde vim a saber que nem chopp Vc bebia devido a uma hepatite contraída quando garoto. Aliás, o Tertuliano era um caso à parte. Não sei se você lembra que durante aquele período de estudos o Plauto e eu fomos obrigados a falar mal de nós mesmos? Sim, porque alem de técnicos tínhamos que ser tradutores pois ele não sabia falar Inglês. Traduzíamos para o Evett todas as asneiras que vinham à cabeça do Tertuliano. Mas, que remédio se não o fizéssemos?Ele era o chefe e nós precisávamos muito daquela consultoria onde o assunto "curvas chave" era crucial.
Naquela época, em matéria de dinheiro você estava numa situação muito difícil, igual a mim. Em virtude disso, perguntou-me se seria possível eu hospeda-lo por no meu apartamento. Concordei pois o Mauro que dividia o imóvel comigo comigo estava em férias e fora da cidade.
Desta forma, você foi meu hóspede durante cinco dias no bairro da Azenha que hoje muitos ainda tem preconceito. Durante o período de sua hospedagem trocamos muitas ideias. Embora o assunto predominante fosse o trabalho e as perspectivas futuras, claro que conversávamos sobre nossas vidas particulares, sonhos, metas...
Naquela época seu papo já era muito bom e agradável e você vivia repetindo que eu era um sujeito muito espontâneo e sincero. Talvez até demais...Alem do trabalho você mostrou ser um profundo conhecedor de música, teatro e cinema, que também eram minhas paixões. Lembro que ao mostrar-lhe minhas fitas gravads e reproduzidas num "minicassete" você se mostrou por demais entusiasmado com a música! I say a little prayer" com a Dione Warwick Volta e meia vc pedia: "põe a negrona de novo". Na mesma época você me "apresentou" Burt Baccharah e suas maravilhosas composições. O LP estava em sua mala! Quanto à sua composição para violão, ainda a tenho gravada.
No fim de semana a temperatura aumentou muito. No sábado estava realmente um calor escaldante, sobre o que você comentou"calor assim nem no Rio...talvez só em Bangú" Vislumbrei então uma solução para amainar os 39 graus: No Cine Baltimore estva sendo exibido em Cinerama o musical "Oliver". A sala tinha ar condicionado perfeito e o musical era mesmo muito bom. e com um som estereofônico impecável. Ouvi o seguinte comentário seu:"Acho que no Rio não tem isso não!"
Próximo capítulo: A VIAGEM
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