quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Prezado Eduardo - Cap. 2 - A VIAGEM

A VIAGEM

Creio que nossa extrema dedicação ao trabalho, a nossa excelente proficiência na língua inglesa e a chatice do Tertuliano fizeram com que Evett tomasse a decisão de apressar nossa viagem aos Estados Unidos para realizar nosso " On The Job Training" no United States Nature Survey conforme estava previsto no nosso contrato de trabalho com aquela Instituição. Assim, logo que vocês chegaram de volta ao Rio, onde então estava situada a Matriz da GEOHIDRO  Evett dirigiu-se ao nosso Diretor -Presidente, Dr Limeira, e acertou com ele os detalhes finais do nosso treinamento.

Algumas semanas depois você me chamou pelo rádioVHF (naquele tempo ainda não existia DDD entre Rio e Porto Alegre) para informar-me que a viagem minha e do Plauto já estava acertada para os primeiros dias de maio. Só faltava enviar nossas fotos para emissão dos passaportes. Ora, quando dei essa notícia a Tertuliano, ele, embora tentasse, não conseguiu disfarçar seu desapontamento. Tentei argumentar mas, em vão. Ele sempre vinha com a mesma resposta: a sua situação funcional aqui na empresa é de simples consultoria e não há vínculo empregatício. Essa falta de vínculo não permite que o senhor viaje na qualidade de bolsista. Com o Dr Plauto não haverá problema pois ele é contratado com carteira de trabalho assinada. O senhor sabe que eu não posso assinar a sua porque essa é a política da Empresa desde o ano passado.

Embora todos aqueles percalços eu tinha quase certeza de que a viagem aconteceria e de alguma maneira Tertuliano percebeu aquilo. Talvez para me aporrinhar mais ele chamou Plauto e disse: o senhor vai mas o Dr Ronaldo não. Se ele continuar tentando tenho certeza de que na hora de providenciarem o Passaporte a empresa vai se dar conta e vão barra-lo. Foi então que você me chamou novamente pelo rádio para informar-me que já estava com os dois passaportes em mão de modo que Plauto e eu deveríamos  partir para os Estados Unidos dentro de dez dias. Sabedor disso, Tertuliano tentou uma última cartada: Tudo bem mas, eu não posso conceder-lhe uma passagem aérea para o Rio pelo nosso velho motivo: o senhor não é empregado regular mas um simples consultor. Voltei então ao VHF e você disse-me com a maior tranquilidade: então, compre uma passagem de ônibus e venha para o Rio para apanhar sua passagem para os Estados Unidos que já está inclusive emitida! Quando Tertuliano soube do inevitável e talvez para evitar atritos com a Presidência da empresa resolveu conceder-me uma passagem aérea, só de ida, para o Rio. Assim, eu não tinha mais dúvidas de que realmente iria realizar meu treinamento no United States Nature Survey, o USNS.

No sábado, 3 de maio de 1970,fui a Santa Maria despedir-me de meus pais e do resto da família,  no domingo após meu regresso a Porto Alegre o Carlos Renato e sua irmã Heléne ofereceram-me um jantar de despedida. Segunda feira, dia 5, parti para o Rio junto com Plauto no Electra das onze horas e às treze horas  encontramos você e Clélia, sua namorada, que nos esperavam. Do Santos Dumont rumamos para a Urca onde se localizava nossa Matriz. De imediato comecei a conhecer as pessoas com as quais, até então, só havia me comunicado por correspondência e rádio. Conheci o Dr Perez, Dr Ávila, D. Luíza, Hermínio e outros. Ah, também  conheci o Professor Rocha Lima sobre quem você já tinha  me falado e destacado seus profundos conhecimentos sobre hidrologia estocástica. Sobre o professor Rocha Lima você também havia mencionado um diálogo entre ele e Tertuliano sobre estocástica. Ao cabo de alguns minutos, o diálogo virou monólogo onde só Tertuliano gesticulava e falava. Quando finalmente o professor desvencilhou-se da "conversação", disse a você, de chofre: "meu Deus quanta ignorância!"  Àquela conversa dos dois Hermínio referiu-se da seguinte forma: Professor Rocha Lima e Dr Tertuliano: "O diálogo impossível".

No Rio, Evett insistiu que Plauto e eu seríamos seus hóspedes até a partida para os Estados Unidos que se daria em dois dias. Evett e Lennie foram anfitriões perfeitos. Os dois dias foram bastante corridos com compra de dólares, visitas técnicas ao consulado.... Na casa de câmbio, o funcionário ficou impressionado com a pouca quantidade de moeda comprada: duzentos dólares cada um. Mas, o que fazer? Não tínhamos mais moeda nacional para trocar e a nossa esperança era que logo que chegássemos receberíamos uma parcela da bolsa.
Finalmente, na quarta-feira à noite Plauto e eu partíamos do Galeão num voo da Braniff cada um com uma mala, duzentos dólares, a cara e a coragem.

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