sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

                       PREZADO EDUARDO
                       (Uma história de ficção)
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                    Cap. 21- Epílogo

                  As cartas não mentem jamais

Outro dia desses peguei minha Bíblia e por acaso abri o Novo Testamento no Evangelho segundo João. Ali, encontrei de maneira explícita a resposta: certas coisas não acontecem somente comigo. Sim Edú, você certamente sabe.... Outra coisa que tenho feito com alguma frequência é tentar manter contato com os Anjos, mensageiros da Luz.  Mas essa é uma experiência difícil pois antes temos que estudar o fenômeno e estarmos preparados e tranquilos porque as respostas quase sempre vem e da manira mais inesperada possível.
Outra experiência interessante aconteceu comigo: Você sabe que Olívia tem o dom de  "jogar as cartas" e uma noite, eu pedi para que ela jogasse para mim. Ela o faz de um modo diferente do que usualmente  se faz ou seja: uma ao lado da outra para leitura. O método que ela usa é dispor as cartas em"X" com a carta de um homem ou uma mulher, conforme o caso, bem no meio do "X". Assim, pode-se ver se as cartas que são dispostas estão perto ou afastadas da carta do meio do "X".  Ela, de saída, como que num impulso  percorreu com o dedo a "perna" do "X" que estava à esquerda até seu extremo superior. E, tocando em cada uma dessas cartas da perna esquerda do "X", disse (uma palavra para cada carta tocada): meu-bem-tu-estás-trocando-de-amor. E fechou o jogo.

Em 25 de outubro de 1996, por acaso, soube que uma nova tempestade estava para desabar obre minha cabeça. Foi sem querer, que atendi uma chamada do telefone e, do outro lado da linha uma pessoa que dizia chamar-se "Barão do Serro Velho" pedia para falar com Olívia, e num tom  autoritário.Ele não sabia quem eu era. Quando a chamei, vi o embaraço dela.  Aquilo foi demais para minha cabeça! De novo!!! Foi só o que pensei, Não vou dar detalhes porque não vem ao caso. Passei a noite em claro mas às dez horas da manhã já havia tomado a decisão. Deu 12:30, 15:00, 20 horas... e às 23 horas  deliberadamente e com firmeza apaguei a luz vermelha para sempre!
Então Edú, neste ano de 1996 o Dr Santiago sabe, à moda dele, que eu consegui equilibrar o Leão com o Aquário. Ele me afirmou que eu sou uma pessoa privilegiada, holística e que seria bom se eu continue assim. Edú, como é bom ser livre, como é bom conhecer os outros lados da vida, como é bom não viver dentro de um quadrado.... Mas não pense que é tudo muito tranquilo. Não é! O pedágio é caro mas vale a pena.
Enfim, ao terminar esta não poderia deixar de falar que passando pelos florais estudei um pouco sobre essências perfumadas,  Primeiramente experimentei jasmim  e rosas, depois passei por outros e até que me apareceu o Perfume cítrico Eternidade que pretendo te-lo sempre ao meu lado pelo resto da minha vida.


                                                      Fim


                 

                   PREZADO EDUARDO
        (Uma obra de ficção publicada em capítulos)
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                    Cap 20
            O Amargo "Post-Scriptum"

Embora o tempo não lhe diga muita coisa, creio eu, preciso lembrar-lhe que em 1987 fui transferido para Brasília. Deixar Porto Alegre foi muito difícil: amigos, lugares,hábitos... Mas, o que fazer? Para progredir na Empresa eu não tinha outra escolha. O início da nova vida em Brasília foi muito gostoso. Brasília é uma cidade bonita e agradável de se viver, mas, não faltavam as "cassandras" que diziam que Brasília era a cidade dos quatro"D": Deslumbramento,desilusão, divórcio e mesmo passando por tudo isso  se você ainda permanecia morando lá, era a Demência.... Pura conversa de quem sentia uma saudade "imensa" da praia e do calor.  No que me diz respeito eu estava realizando um sonho que de certa forma  acalentava desde a noite de 21 de abril de 1960 quando ouvi pelo rádio JK inaugurar a Novap.
Assim, nos finais de semana passeávamos muito e tentávamos descobrir a lógica da cidade. O urbanismo de Lúcio Costa era fenomenal!  No início, moramos num apartamento alugado na 103 Sul ou SQS 103 e muito próximo ao nosso Escritório Central, de modo que pelas manhãs eu levava Iuri até o Colégio Dom Bosco e depois seguia para o trabalho. Tudo a pé. Minha primeira descoberta de lazer foi o Parque da Cidade que oferecia uma série de recantos muito aprazíveis e como estávamos na estação seca tínhamos a nítida impressão de desfrutar um outono sem frio pois as folhas amareladas de árvores nativas e exóticas formavam pequenos tapetes naturais. Descobrimos as demais Superquadras ímpares e pares e norte e sul, o Conjunto Gilberto Salomão, o Conjunto Nacional, o Parkshopping, os Lagos Norte e Sul, os Setores de Mansões Norte e Sul, o Teatro Nacional e a Brasília Super Rádio FM, a melhor rádio do mundo, no meu ponto de vista. Estávamos realmente deslumbrados e tudo iria melhorar quando eu conseguisse adquirir, sem pressa, um apartamento maior.
Durante as viagens que Olívia fazia a serviço Iuri e eu curtíamos a cidade, sozinhos.
Foi nesse clima que aproximamo-nos celeremente do Natal de 1987 e do promissor ano novo de 1988 e nossos planos para esse período de recesso emendado com minhas férias incluíam uma viagem a Porto Alegre e vinte dias na nossa casa de praia no Cassino, Rio Grande. A casa que reformei dois anos antes transformou-se numa agradável residência de verão onde vou à praia,preparo churrascos para os amigos, primos, irmã, cunhado e sobrinhos. Os três primos de Iuri,quase todos da mesma idade curtiam muito o veraneio.  Era uma verdadeira festa para eles. Alem disso, eu gostava de cortar a grama, ajustar a antena de televisão e mexer nas instalações elétricas e hidráulicas da casa. Enfim, era uma verdadeira higiene mental no melhor dos mundos.
Mas, ainda em Porto Alegre, encontramos nossos vizinhos Felipe e Duda, alem de outros familiares. Já nesse momento comecei a notar discretos modos inquietos no comportamento de Olívia. Várias vezes a encontrava cantando mas, quando eu me aproximava dela tornava-se distante, me evitava, sentia dores e num desses episódios, já nos últimos dias de férias ela insinuou várias vezes  que uma separação seria melhor para os dois. Como você me conhece muito bem Edú aquele tipo de situação me perturbava muito e tive que recorrer novamente ao Dr Santiago que já havia me dado alta quando mudei-me para Brasília.
Entre várias coisas que ele falou lembro uma que me marcou:"Ronaldo, existem várias mulheres que querem ter um homem como você... Mas, é claro que eu não vou te dizer os nomes......" Rimos muito.
Neste clima de desconfiança regressamos a Brasília após as férias. Eu começava a ter uma certa desilusão com a cidade. Claro que não era bem com a cidade, era comigo mesmo, e acabamos derramando nossas angustias e frustrações nas pessoas com quem convivemos,e com o trabalho, Particularmente eu acreditava que esta seria a hora de agarrar o touro à unha e fazer desaparecer, por completo, a luz vermelha que teimosamente voltava a aparecer. Foi justamente neste período que Olívia deu o "veretictum" dela: Não gosto mais de você! Também já esqueci o falecido Pepe, o Agrícola, o....... e assim fez desfilar uma série de nomes. Pensei então: "Eu tinha razão desde o início." Mas, antes que ela pudesse proferir qualquer palavra eu disse: "Muito bem, então vamos nos separar mas o Iuri fica comigo" Sem hesitar ela concordou e continuou:" Estou apaixonada pelo Julio Cesar, que conheci na viagem a Rondônia. Vou para lá o mais breve possível pois ele até vai falar com a mulher dele para propor divórcio como eu estou fazendo contigo." Fiquei atônito com a rapidez da decisão e com a situação dela e do tal Julio Cesar que me parecia um tanto instável. Então aduzi:"Você está indo como a 'outra' ou a 'segunda mulher.' Este fato não te assusta ou te deixa insegura?" Rispidamente ela respondeu: "Eu vou  como mulher de segunda, terceira,,, seja lá o que for. Amo o Julio Cesar!". Também respondi rispidamente: "Você pode ser mulher de segunda ou terceira mas eu sou homem de primeira linha!"
De imediato passamos da desilusão ao divórcio. Tudo muito rápido pois não houve litígio e eu queria ver logo aquela situação resolvida.
Por mais incrível que possa parecer e por razões que até hoje desconheço, houve por parte dela uma tentativa de reversão da situação. Embora repetidas vezes  o Dr Santiago me alertara para não recomeçar, mas Iuri a própria Olívia insistiram para que isso acontecesse. Repito que até hoje, não sei porque Olívia resolveu de repente querer voltar para mim, reiniciar... e mais uma vez eu cedi. Decisão amarga para mim. Claro Edú, aquela seria a melhor hora de apagar a luz vermelha mas não o fiz. Em todo o caso eu já havia iniciado um processo de mudança dizendo a ela: "Olha, eu sou um torrão de açúcar que você pode ir  degustando, degustando mas, de repente pode encontrar um grão de pimenta no interior do torrão....
Nessa situação e realizando, a pedido dela, a reversão legal do divórcio, reiniciamos e continuamos em Brasília. Seria a demência? Acho que era apenas um pouco de debilidade. Pelo meu lado, enquanto Olívia esteve às voltas com a mudança dela para Rondônia e o divórcio já concluído, eu reencontrei Aline numa de minhas viagens a Porto Alegre no período em que eu já sentia uma pré reconciliação com Olívia. Não lembro se já havia conversado com você sobre Aline, creio que sim. Fomos namorados algum tempo em mil novecentos e sessenta e nove. Quando estava pensando em noivar mas,  resolvi terminar o namoro porque eu queria ir para os Estados Unidos livre de compromissos, casar com uma americana e ficar lá para sempre. Bem, quando reencontrei Aline, ela já havia se casado e divorciado e já tinha um filho. Recebeu-me em Porto Alegre na Quinta Feira Santa de 1988, com um abraço tão gostoso que dificilmente iria esquecer. Tivemos um longo,  tumultuado e tórrido romance mesmo depois de eu ter reatado com Olívia. Olívia vinha a Brasília e eu ia a Porto Alegre. Ela socióloga e sempre, como eu, inventávamos uma viagem. A distância e o recomeço com Olívia, que parecia tinha se acertado, acabaram por terminar o relacionamento mais legal que tive na minha vida.
Entretanto Edú aquela luz começava a incomodar demais... Mas, antes de entrar nessa seara quero te falar algumas coisas do País. Sobre o trabalho:Estive na Diretoria  do Vitorino Fassbinder  Pi e Assunção que deve ter sido seu colega no tempo do escritório do Rio de Janeiro. Fui seu fiel funcionário e amigo, mesmo quando ele caiu em desgraça, e hoje ele finge que não me conhece. Até imagino por quais razões mas, são tão estúpidas que prefiro não falar. Eu, pelo menos coloco a minha cabeça no travesseiro e durmo. e ele..... não sei. O que posso te afirmar é que ele nunca teve um amigo como eu e o tempo, talvez um dia, vai explicar mais essa aleivosia da qual fui vítima. Sobre o País: Em 1990 tivemos um período político extremamente atribulado. O Presidente de então, eleito pelo voto direto, foi retirado do poder pelo processo do "impeachment"  e se não estivéssemos em plena democracia a situação teria sido bem pior pois a governabilidade do País chegou a ser ameaçada. Após, seguindo as regras democráticas tivemos um período mais calmo porem com uma inflação altíssima: mais ou menos 1% ao dia. Mas, felizmente, o honrado Vice que sucedeu o Presidente impedido colocou no Ministério da Fazenda uma equipe que arquitetou e implantou  um Plano Econômico e uma nova moeda, o Real, que desde sua entrada  em operação tem desvalorizado muito pouco, embora hajam pressões fortíssimas para uma maxi desvalorização, os preços estão quase estáveis há mais de quatro anos.
Um pouco antes do tumultuado período que já mencionei, consegui adquirir um bom apartamento na na ASA NORTE. Cheguei à demência? Vivemos lá Olívia e eu pois Iuri logo que concluiu o segundo grau nos Estados Unidos, esteve algum tempo conosco e depois foi para Porto Alegre, já aos 19 anos, para estudar Ciências Políticas. Concluindo o Curso com brilhantismo voltou aos Estados Unidos, onde trabalha, casou e me deu um neto americano. Mora em Washington DC.


Último capítulo: As cartas não mentem jamais



quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

                       PREZADO EDUARDO
                       (Uma história de ficção)
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                         Cap. 19

                                 Aquário
Agora em pleno mês de julho de 1981, o panorama de nossas vidas  e do País é o seguinte: Continuo casado com Olívia, que terminou seu curso de psicologia e penso que sou feliz. Iuri já está com seis anos.  Ampliei consideravelmente o número de amigos e conhecidos  e junto com o pessoal da família como o Pedro e a Juçara, o Beato e a Verônica, temos recebido o José Paulo e a Graça, o Bóris e o Jandir com as respectivas esposas, sendo que estes dois últimos tem muita coisa em comum comigo e com você. No meu aniversário, por exemplo, o Bóris me presenteou com o livro "Que loucura" do Woody Allen.

Por outro lado embora a inflação tenha atingido a casa dos três dígitos, a dívida externa ultrapasse 50 bilhões de dólares e estejamos pagando quase 40 dólares pelo barril do petróleo, creio que a situação não é de se desesperar pois as Regionais apesar  da crise(sic) não foram desativadas e tivemos uma anistia ampla, geral e irrestrita. Temos assim a mais absoluta liberdade de imprensa , a censura a filmes foi abolida e só existe limitação pela idade. Graças a isso pode-se assistir filmes com"Z" de Costa Gavras, Laranja Mecânica(embora com ridículas bolinhas pretas nos órgãos sexuais) de Stanley Kubrick,Último Tango em Paris do Bertolucci e Decameron do Pasolini. Parece que está tudo a mil maravilhas mas é bem nítido o ovo da serpente. O Bruxo e asseclas ainda estão por perto.
Cada vez que assisto a um bom filme, peça de teatro ou leio um bom livro, lembro-me de você e penso: "como o Eduardo iria curtir 'Manhattan', 'Annie Hall','O Franco Atirador','Hair',a 'trilogia' do Gabeira,'O Beijo da Mulher Aranha','Ragtime','Gente como a Gente','Bye Bye Brasil'.......
Olhando porem as coisas sobre outro ângulo, você não estando mais no nosso meio, ficou livre de ouvir ou ler notícias desagradáveis como o assassinato do John Lennon ou sobre o desemprego que assola o País.


Enfim, meu caro Edú, gostaria de te dizer o que penso sobre essa transformação, toda essa crise, toda essa confusão pelas quais passam as pessoas, o País e o mundo. Quase posso assegurar-te que tudo isso é um sinal evidente  que estamos chegando ao crepúsculo da atribulada Era de Peixes para entrar na alvorada da  Era de Aquário.
                                                                     Saudades do amigo
                                                                           Ronaldo





Próximo capítulo (penúltimo): O amargo "Post Scripton"

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

               PREZADO EDUARDO                           (Uma história de ficção publicada em capítulos)
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            Cap. 18

               Perguntas e Respostas
Foi quando nos encontramos nos Estados Unidos em 1970 que tomei conhecimento do primeiro número da Revista "Pessoas e Fatos" cujo lançamento estava ocorrendo simultaneamente no Brasil. Desde aquela época venho cultivando o hábito de ler aquele periódico mensal. Outro dia, folheando o exemplar de julho fiquei   um tanto surpreso com uma reportagem sobre o Geraldo Orlando Velloso, nosso antigo colega da GEOHIDRO. Pois fique você sabendo que o Geraldo acabou concretizando um velho sonho. Naturalmente você deve lembrar das conversas que mantínhamos no "Roda d'Água" na Praia Vermelha, próximo ao nosso escritório central. Geraldo sempre dizia que um dia iria largar a engenharia e iria dedicar-se ao rádio, talvez sua primeira vocação. E não é que o Universo conspirou a seu favor? Em 1979, talvez para ficar bem afastado do Bruxo e sua roda resolveu aceitar o convite de seu cunhado para dirigir uma Rede de Emissoras de Frequência Modulada. O esquema montado por ele  dele deu tão certo que hoje ele é considerado um "expert" no assunto! Vocação é vocação, embora tenhamos a possibilidade de seguir varias que se apresentem se dedicarmos esforço suficiente para tal. Ele, hoje, é figura nacionalmente conhecida e comanda uma rede de centenas de afiliadas em todo o Brasil com sede em São Paulo e apresentando a mesma programação ao mesmo tempo, via satélite. Resolvi então, transcrever para você uma parte da entrevista que a repórter Maura Merlin fez com ele:

Maura: Geraldo, conte como você ingressou no campo da radiodifusão, uma vez que sua formação universitária nada ter a ver com rádio, afinal você é um dos melhores especialistas do Brasil em Recurso Hídricos...

Geraldo:Apesar de minha formação profissional ser de outro ramo, desde jovem fui sempre muito interessado por rádio mas também pelos recursos naturais:nosso solo, nossa água,nossas florestas.... Resolvi então, primeiramente dedicar-me aos nossos recursos hídricos mas, sempre pensando que um dia eu iria dedicar pelo menos parte do meu tempo ao rádio. E por ocasião dos "tempos difíceis" em meados da década passada, não perdi a oportunidade que se apresentou com o convite do meu cunhado Ciro da Veiga.

Maura: Você de certa forma revolucionou o rádio em Frequência Modulada pois abandonou os velhos esquemas de "música de elevador" e "música moderna barulhenta", partindo inclusive para apresentações de "música erudita" numa boa parte da programação. Não foi um risco muito grande, comercialmente falando?

Geraldo: É, de certa forma foi sim. Eu mudei os velhos esquemas partindo para "Programação em Blocos". Hoje, nós temos em toda a rede blocos de música brasileira tradicional, música estrangeira suave (os famosos "Standard"), música estrangeira jovem,música brasileira jovem,  e música erudita de compositores estrangeiros e nacionais. Claro que comercialmente foi um risco mas, temos um bom número de nichos em blocos estanques e o esquema adotado deu certo pois dirigimos os comerciais para determinados seguimentos da população de acordo com o "bloco" que está sendo transmitido.

Maura: como está sendo a acolhida dos programas de música erudita?

Geraldo: De acordo com pesquisas que temos realizado, a acolhida é excelente! É um erro pensar-se que o brasileiro não gosta de música erudita. Gosta sim e passará a gostar cada vez mais, tenho certeza. Você deve ter notado que durante as emissões de programas com música erudita, procuramos transmitir também  e de uma maneira muito didática, informações sobre a história da obra e seu compositor.

Maura: Você ainda mantem algum vínculo com seu antigo campo de atividades, ou seja, os recursos naturais?

Geraldo: Profissionalmente não e afetivamente sim. Acontece que quando eu trabalhava em recursos naturais sempre achava um tempo de desenvolver rádio fosse através de radioescuta, faixa do cidadão, e acompanhamento das concessões e permissões outorgadas pelo governo naquela área. Hoje acontece justamente ao contrário: Faço rádio, mas acompanho regularmente quase tudo o que ocorre na área dos recursos naturais.

Maura: Cite-nos alum exemplo sobre algo novo que tenha ocorrido na área dos recursos naturais, alem do que é publicado na mídia, claro.

Geraldo: Na parte do aproveitamento dos recursos hídricos, por exemplo, houve um progresso notável. Hoje já estão formados vários "Comitês de Bacia" que congregam Governo,usuários,organizações não governamentais etc...ou seja, todos os que tem interesse direto ou indireto no recurso hídrico da bacia. O objetivo final é realizar estudos,ouvir a comunidade,a área ambiental...... Isso tudo no sentido de se obter um aproveitamento múltiplo da água e minimizar os impactos ambientais.

Maura: Você quer dizer que agora se considera o aproveitamento de um rio em todos os seus aspectos: geração hidrelétrica. navegação,abastecimento público, diluição de efluentes tratados, pesca, composição paisagística, relocação das populações ribeirinhas, lazer.... e tudo ambientalmente sustentável?

Geraldo:Exatamente. Você foi direto aos pontos nevrálgicos!  Há algum tempo atrás, não só o Brasil mas em vários outros Países cada usuário da água considerava o rio visando quase que unicamente seus próprios objetivos. Assim,  setor elétrico via o rio como fonte geradora de energia, o setor de saneamento sob o ângulo de fonte para água potável e lançamento de efluentes,o setor da agricultura sob o ângulo da irrigação e assim por diante. Hoje, quando se projeta uma obra, alem de considerar o uso integrado da mesma, obrigatoriamente a licença ambiental é fundamental.




Próximo Capítulo:   AQUÁRIO










 

                     PREZADO EDUARDO
                     (Uma história de ficção)
                      Cap. 17
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                      Análise,Livros e Astros

Tenho observado que de algum tempo para cá algumas mudanças estão processando-se em minha maneira de ser e ver as coisas.
Através da Análise, que eu considero um trabalho realmente artesanal e extremamente difícil foi possível me libertar da maioria dos medos, angústias e outros demônios que povoavam minha mente. Disse a maioria, porque alguns ainda estão lá. Comecei também um processo de descobertas....
Por outro lado, estudando profundamente  minha carta astrológica, que fiz um curso completo, executada por uma cidadã do mundo, segundo ela mesma, percebi entre outras coisas  que tenho o Sol em Leão e isso me proporciona alumas características básicas em termos de liderança,chefia, organização.... Em contrapartida eu não possuía ou as possuía em quantidades mínimas algumas características opostas ao meu Leão que como você sabe está a 180º, o Aquário, que caracteriza-se por independência, perspectivas progressistas, uma certa desorganização. No meu ponto de vista, o Cálculo Vetorial aprendido na Engenharia podem de certa forma explicar algumas coisas.
Lendo, mas lendo muito tenho adquirido conhecimentos notáveis e a leitura tem se constituído para mim um fator vital, tão vital quanto ao ar que respiro. Ler e escrever são direitos fundamentais do ser humano e por isso mesmo são as formas mais expressivas da liberdade. Lamento quando uma ditadura se implanta ou ameça de se implantar pois a primeira coisa que cortam é a liberdade de expressão em toda a mídia.


Próximo Capítulo: Perguntas e Respostas

domingo, 25 de janeiro de 2015

                      PREZADO EDUARDO
                        Uma história de ficção
                       Cap16
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                      O Amigo que parte

Creio que já estava em processo de análise há alguns meses quando nos vimos pela última vez em Brasília. Eu estava de passagem por lá e Olívia e Iuri já havia regressado a minha casa. A relação estava mais ou menos acertada sem eu saber de todos os pormenores....Ela não me contara tudo.  Nessa viagem a Brasília tivemos a oportunidade de conhecer o Artur Bernardo seu filho e de Clélia. Ele era alguns meses mais velho que Iuri. que tinha ficado como a avó em Porto Alegre, e tem mais , vocês aguardavam outro filho  que você queria que fosse uma menina, a Ana Luíza. O encontro foi rápido pois tínhamos uma série de compromissos a atender. Não poderíamos nem de longe imaginar que nunca mais nos veríamos, pelo menos em condições normais de temperatura e pressão.


 O Bruxo, o Assecla e sua entourage estavam mais ativos do que que nunca......




Foi num determinado dia do mês de novembro de 1976 que logo após a chegar ao meu escritório fui avisado pela minha secretária Dinah que o Norberto, nosso colega de Curitiba, estava ao telefone e que  queria falar comigo.  Foi ele quem me comunicou que você  havia partido.
Lembro-me de uma expressão de Gabeira que um dia no passado escreveu mais ou menos o seguinte: "Podemos  contar os mortos, os desparecidos, os órfãos, as viúvas..... Pode-as até fazer um Documentário ou um Relatório sobre isso. Mas quem vai contar os desaparecidos anônimos que foram vítimas indiretas do arbítrio????" Essas pessoas vão ficar esquecidas na poeira da história......




Alguns meses mais tarde, ali por meados de março de 1977, Olívia e eu fomos visitar do Louis Affonso, da GEOSONDA, e sua mulher Lenira em seu novo apartamento,Eles foram nossos padrinhos de casamento e nós fomos padrinhos deles. Conversamos descontraidamente sobre vários assuntos. Depois de mais ou menos uma hora de conversa, Lenira que havia ido a cozinha  apanhar um copo, avisou-me que um amigo meu estava ali e queria falar comigo. Perguntei quem era e ela me respondeu que ele dizia chamar-se Edu. Ora, Você ali Edu?! Ainda surpreso o recebi e perguntei como você estava. Você disse que estava bem. Trocamos mais algumas palavras e então lembrei-me de perguntar se seu segundo filho já havia nascido e se era uma menina, a Ana Luíza, como você tanto queria. Você respondeu que não. Tinha sido um menino. Logo em seguida você deu tchau e foi embora, As lágrimas me vieram aos olhos.


Volta e meia eu mantenho contato telefônico com com o Santini e a Marion. ele agora meu ex-Diretor e ambos nossos amigos e de você e Clélia. Num desses contatos eu lembrei-me de perguntar à Marion se Clélia já havia ganho o bebe. Marion me informou que sim e que era um belo garoto.




Próximo capítulo: Análise, Livros e Astros














sábado, 24 de janeiro de 2015

                                                   PREZADO EDUARDO
     (Uma história de ficção publicada em capítulos)
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                  Cap. 15


                       Viajando inopinadamente

Eram mais ou menos 18h:30m quando eu estava desembarcando no aeroporto de Congonhas. Chequei os documentos e a bagagem e dirigi-me diretamente à ala internacional. Lembro-lhe que  o aeroporto de Guarulhos ainda não existia e as duas saídas do Brasil, via aérea, só eram  Congonhas e Galeão. Lembro que o aeroporto estava muito frio e este fato de certa forma amenizava a minha inexplicável angústia.
Como faltavam ainda duas horas para o voo procurei um lugar no saguão para sentar e, apenas com minha valise da mão e meu capote adquirido em Londres, acomodei-me numa poltrona próxima. Permaneci algum tempo sentado e sem saber bem porque, levantei-me e me dirigi ao quiosque de chaveiros de acrílico e adquiri um em forma de prisma retangular e solicitei que fosse inscrita a palavra FREEDOM.  Neste chaveiro coloquei uma chave muito pequena, mas muito bem acabada, parecia uma joia, e que não lembrava onde havia adquirido e tão pouco foi parar no meu bolso. Olhando fixamente para a chave  e o chaveiro comecei a relembrar alguns fatos ocorridos na semana. Logo após minha volta de uma viagem a serviço a Brasília o mundo continuava a desabar  sobre mim e mesmo assim eu procurava, de alguma forma, buscar alternativas para refazer minha vida. Seriam já os primeiros resultados do "artesanato" que o Dr Santiago trabalhava comigo? Creio que por volta de onze horas da manhã da quinta-feira dois de abril de 1976 minha secretária entregou-me um telex do novo Diretor Técnico da empresa, Dr  Melão, cujo teor era o seguinte: "Informo a VSa. que o indiquei para participar no Seminário sobre Recursos Naturais a realizar-se no período 13 a 15 do corrente em Jackson, Mississipi-Estados Unidos. Saudações. Manoel Melão, Diretor Técnico."
Daí para frente foi uma corrida contra o tempo: malas, roupas, visto no passaporte, compra de travellers checks etc. De repente ali estava eu, pronto para mais uma viagem ao exterior. O voo até Miami foi tão tranquilo que nem senti e nem mesmo aceitei o jantar. Estava exausto e devo ter dormido toda viagem pois nada lembro.

Chegando a Miami a conexão prevista era imediata pela American Airlines e demorei poucos minutos na área de imigração. Já em Jackson, Mississipi dirigi-me de táxi para o Hotel Golden Dream em cujo salão de convenções iriam realizar o Seminário. A Abertura do evento se daria naquela noite, e como faltassem ainda algumas horas, após o almoço, recolhi-me ao apartamento para olhar com mais detalhes a pauta do seminário. Por volta das sete da noite fiz minha inscrição, apanhei a pasta e demais documentos e  comecei a caminhar pelas adjacências do Salão de Convenções. O Hotel era o mais luxuoso entre os que eu já havia me hospedado nos Estados Unidos.Toda a decoração era em tons de verde e embora eu estivesse só, sentia uma paz profunda.
Subitamente, passa por mim alguém com "aquele caminhar meio desajeitado", "baixinha e com um corpo perfeito.......... "Não é possível", pensei. Mas era. Era possível sim! Tinha tanta certeza que era ela  de tal forma que apressei o passo  e exclamei: "Peggy!" Ela olhou-me e tão espantada quanto eu respondeu: "Ron!" Abraçamo-nos... olhamo-nos,...abraçamo-nos de novo.... Era incrível Edu! Peggy estava ali como uma das representantes do NS no seminário! Eu sei que é difícil de acreditar! Começamos a caminhar, de mãos dadas, e olhando um para o outro sem dizer nada. Quando me dei conta, estava no apartamento dela. Depois de nos abraçarmos e beijarmo-nos longamente, começamos a nos despir. Peggy estava como corpo mais lindo do que nunca. Amamo-nos profunda e intensamente naquela noite. Creio que adormecemos quando o sistema de som do apartamento tocava "Danças Polovtzianas do Prícipe Igor" de Alexander Borodin. Eu me sentia "um estranho no Paraíso"....

Acordei ouvindo os acordes de "Velha Gaita" do folclore gaúcho, misturado a um sinal sonoro indicativo de hora certa. Era a Rádio da Universidade Federal do Rio Grande do Sul que iniciava suas transmissões que eu recebia através do meu rádio despertador. A sensação de felicidade foi se transformando em frustração e o único fato concreto do meu amor com Peggy naquela noite de dois para três de abril de mil novecentos e setenta e três era o lençol ainda umedecido. E enquanto o locutor da rádio anunciava o Concerto nº 4 para Piano e Orquestra de Rachmaninoff, no Concerto Matinal, eu fazia um movimento circular com o braço direito em direção ao lado vazio da cama, na vã esperança de ali encontrar Peggy.




Próximo capítulo:   O amigo que parte


sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

                 PREZADO EDUARDO                                                                                                                (Uma história de ficção  publicada em capítulos)
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              Cap. 14  

                       Encontro Semanal

                                       Com o objetivo de aliviar ou pelo menos tentar compreender as pressões internas e externas,eu estava decidido procurar um psiquiatra pois na realidade eu não teria nada a perder. Custaria caro, isto sim,mas, àquelas alturas dinheiro não teria tanta importância para mim. Seria o caso de "pedir empréstimo num banco", ela tripudiou. Creio que pensei no assunto durante dois ou três dias. As crises aumentavam.... e quanto mais aumentavam mais tripudiava a suposta aleivosa,digo suposta pois  ainda não havia me contado  seus atos correlatos. Eram pura desconfiança minha e eu não tinha nem como procurar provas....
Todos esses fatos me encorajaram a finalmente conversar com meu amigo Dr Waldir Bortolotto, médico urologista, para que ele me indicasse um psiquiatra. Waldir indicou-me o Dr Nei Felício Santiago. "Ele é um sujeito muito estudioso e tenho ótimas referências dele", acrescentou Bortolotto. Tentei marcar consulta pelo telefone diretamente com o Dr Santiago e ele me disse que gostaria de me atender mas que não tinha horário disponível porém,  ele iria anotar meu telefone  e assim que houvesse uma vaga ele me chamaria. Não é necessário dizer que eu me sentia completamente abandonado.

Com muito estoicismo eu superava os momentos mais difíceis e não chegou a haver o caos tão temido no que se referia ao meu trabalho.

Finalmente o Dr Santiago ligou e em seguida eu estava me dirigindo ao seu consultório no centro de Porto Alegre. Um local singelamente decorado e muito  agradável. O Dr Santiago me recebeu muito bem e de saída vi que era uma pessoa legal. Ele era mais ou menos da minha idade e muito gentil. Contei-lhe em linhas gerais  o que estava acontecendo comigo e ao concluir não escondi o fato de saber que aquele tratamento era longo  e caro  e eu não teria condições financeiras de prosseguir.
Eu estava naquele momento num num profundo estado de angustia e me sentindo tremendamente humilhado e ameaçado. Não era fácil admitir a ideia que meu filho iria ser criado longe de mim... O Dr Santiago ouviu pacientemente todas as minhas observações e finalmente interviu.  "O senhor é livre para decidir sobre sua vida, entretanto eu creio que o senhor está precisando de ajuda  e não será por falta de recursos financeiros da sua parte que eu vou deixar de atende-lo. Vamos conversar mais sobre isso. Veja bem, eu não sou comerciante, sou médico e vivo da minha profissão, portanto eu tenho que cobrar pelos serviços que presto. Vamos ver quanto o senhor ganha e o quanto poderia me pagar. Quem vai fazer o preço é o senhor Dr Ronaldo e não eu" Feitas as contas, eu conclui que poderia pagar US$50.00 a consulta, uma vez por semana. Quando me dei conta, o Dr Santiago aceitou a proposta sem a mínima objeção. Era óbvio que o preço que eu propus era muito menor do que ele estava acostumado a cobrar da média dos pacientes.  Ele colocou uma única restrição: só poderia me atender às segundas feiras à noite das vinte e uma às vinte e uma e cinquenta.
E assim, meu prezado amigo, eu comecei o meu longo processo de análise e terapia que, no início, foi muito difícil e doloroso: estava começando  a descascar meu ser para o Dr santiago realizar o que ele chamava de "trabalho artesanal".
Eu frequentava a poltrona do Dr Santiago uma vez por semana e as conversas que eu mantinha com ele me ajudavam muito a carregar aquele fardo. Lembrei-me o que aprendi na Igreja da Inglaterra: Deus nunca nos dá um fardo mais pesado do que aquele que podemos carregar. Houve dias em que eu saía bem do consultório e outros saía arrasado. Entretanto eu compreendia que aquilo fazia parte do complexo tratamento ao qual eu estava sendo submetido.
Para agravar ainda mais a situação, foi justamente nesse período de crise que aconteceu o incêndio das Lojas Renner, aqui em Porto Alegre, que por força das circunstâncias eu havia presenciado bem de perto pois o escritório da Regional ficava quase em frente.

O elefante havia sobrevivido à picada do escorpião embora com muitas sequelas e a luz vermelha foi esmaecendo até ficar quase apagada mas, ainda estava lá. Porém agora a compreensão era outra.
Algumas pessoas reagiam fortemente quando sabiam do meu tratamento e não tinham a mínima ideia sobre o conceito de saúde mental. Os aproveitadores de ocasião diziam: "eu te faço essa tal de terapia pela metade do preço pois tu falas,  eu escuto e te dou uns palpites" Outros diziam: "Deve ser difícil conviver com uma pessoa desequilibrada....." Todas essas coisas fizeram-me lembrar de um filme que eu assistira há muitos anos e que no epílogo da película era focalizada uma placa fixada na frente de um Hospital Psiquiátrico com os a seguinte frase: "São todos os que estão? estão todos os que são?



Próximo capítulo: "Viajando inopinadamente"





                     






segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

                                   

                       PREZADO EDUARDO
                       Cap 13
                  Uma história de ficção publicada em capítulos)
                             (Todos os Direitos Reservados)
                     
                             Um aspecto desfavorável
N
Não sei se você lembra  da história do elefante e do escorpião. Um escorpião necessitava atravessar um rio raso mas era impossível pois não sabia nadar. Pediu ao elefante ao lado que estava prestes a cruzar o pequeno curso d'água para carrega-lo nas costas. O elefante conhecendo o perigo respondeu: "Se eu carrega-lo, certamente no meio do percurso você irá me picar e eu vou morrer". "Olha só que bobagem você está dizendo elefante: Se eu o picar você morre, afunda e eu também morro afogado". Diante de tal argumento, o elefante  consentiu, deu carona ao escorpião, e começaram a travessia. No meio do caminho o escorpião o picou . Agonizando o elefante disse: "Mas você disse que não iria me picar!" "Eu sei o que eu disse mas, picar é da minha natureza" Em outra palavras, o Dr Santiago, a quem vou me referir mais adiante, disse-me  a mesma coisa.
Existem pessoas que ao trair, na realidade elas não estão querendo machucar o parceiro ou a parceira mas sim exercer uma coisa que lhe é nata. Só vim entender isso muito mais tarde, muito tarde.
Outra coisa que demorei entender foram os tais sinais de luz vermelha. Muitas vezes estamos acostumados a lidar, talvez desde a infância, com certos fatos e às vezes comportamentos que só vamos descobrir com o decorrer do tempo embora uma tênue luz vermelha nos alerte. Algumas dessas coisas são pontos fora da curva e numa representação gráfica de um evento representado matematicamente esses pontos são oriundos de dados rigorosamente corretos. Ora, você sabe tão bem quanto eu que no ajuste de curvas de vazão de rios alguns pontos fora da curva representam a variação da relação cota-descarga em função das mudanças que ocorrem nos leitos dos rios. Levei algum tempo para fazer essa descoberta.  
Pois bem, levando esses dois fatos em consideração, no dia vinte e dois de março de 1976, creio que no exato momento em que o Sol entrava em Àries, eu sofri um profundo abalo em minha vida cujos efeitos se fazem sentir até hoje. A partir daquele dia e durante um período aproximado de três meses meu prezado amigo, o que se passou comigo eu não vou te contar. Não vou não. Por um motivo muito importante: Da maneira como você me conhece e me estima  seria demasiado penoso para, os dois, se eu recordar os detalhes. Confesso que cheguei a pensar em chamar o Centro de Valorização da Vida! O período sobre o qual estou falando tem tudo a ver com a história do elefante e dos pontos fora da curva. Naquele mês de março eu estava sendo submetido a uma enorme pressão externa que chegou às raias da chantagem e que envolviam Iuri.  Como se isso não bastasse somava-se ainda uma violenta,maquiavélica e diabólica pressão externa. Sobre a pressão externa para acabarem com o nosso trabalho, você também estava sendo vítima e lembro-me de nossa indignação por telefone,Sim, eu sei, os bruxo e seus asseclas do mal estavam soltos e dando as cartas mas, nada podíamos fazer. Quanto à pressão interna, eu não sei até que ponto você vai entender.... Acho que vai entender tudo.
Embora submetido a todo o tipo de humilhação que se pode fazer a um ser humano, eu estava contornando a situação de tal maneira que só as pessoas mais chegadas percebiam.  E não podia ser de outra maneira pois eu tinha que manter uma certa postura a fim de que o meu desempenho funcional não fosse comprometido pois de outro modo tudo estaria irremediavelmente perdido. Eu estava tão fora da realidade que muitas vezes quando eu  me dava conta encontrava-me nos lugares mais inusitados de Porto Alegre ou então acordava no meio da noite e ficava caminhando entre a sala e o quarto. Por medo, piedade ou para tripudiar, a algoz avisou meus pais que, de imediato, vieram de Santa Maria para no mínimo me darem apoio. O pai quase não falava  e torcia para que tudo voltasse ao normal. Já minha mãe entendeu melhor a situação  ao ver minhas lágrimas. Naqueles momentos recordei todo o apoio que sempre havia recebido dela nos piores momentos da minha vida.

Depois de muita reflexão e fazendo de tudo para ficar ao lado de Iuri, resolvi "agarrar o touro à unha", isto é, achei que estava na hora de procurar ajuda profissional externa. E assim foi feito pois eu não estava mais aguentando aquele aspecto desfavorável de Vênus em quadratura com Netuno.





Próximo Capítulo: Encontro semanal
















domingo, 18 de janeiro de 2015


                PREZADO EDUARDO

                 Cap.12
                             (Todos os Direitos Reservados)
                                              Vida em família
                                      Como fruto do amor entre eu e Olívia, nasceu em agosto de  1974 um lindo garoto a que demos o nome de  IURI. Ele hoje está com com seis anos e meio e nos amamos muito os três.  Por   razões internas e externas resolvemos ficar somente no primeiro filho.  A luz piscou no mundo interior e o mundo exterior parecia que estavam chocando  um ovo  de serpente. Na realidade, por algum tempo arranjamos um outro filho, não um filho biológico mas um filho de coração que foi batizado com o nome de Elizalde ( eu o chamo carinhosamente de Eli) e ele pertence a uma minoria racial e eu o amo como se fosse meu filho ele me chamava de pai. Eli e Iuri tem um ano de diferença e são muito amigos
Enquanto eu trabalhava arduamente, Olívia também o fazia; trabalhava durante o dia  no atendimento de crianças com necessidades especiais e à noite cursava psicologia na Universidade do Vale do Cai. Morávamos os três num apartamento razoável que você chegou a conhecer quando lá esteve com Clélia e com o recém nascido Arthur Bernardo.
A Babá que cuidava de Iuri e às vezes de Eli, o fez com desvelo e ações de verdadeira mãe. 


Nos primeiros anos de Iuri quase não saíamos de casa nos fins de semana e como sou cinemeiro passei a assistir filmes na televisão, hábito que não possuía, Os meus filmes favoritos eram o da sessão "Premiére". Algumas vezes, no sábado e domingo à tarde passeávamos no Parque da Redenção e raramente íamos ao Parque Marinha que ainda dispunha de árvores muito pequenas que não proporcionavam sombra adequada. Hoje é um imenso e maravilhoso parque com árvores frondosas que fazem a alegria dos corredores e passantes. Foi passeando comigo e colocado num brinquedo do parque de diversões da Redenção que Eli deu seu primeiro sorriso aos dois anos e pouco de idade. É incrível Edú, ele nunca havia sorrido! Sinto-me orgulhoso de ter proporcionado a ele este hábito que a humanidade ainda possui.

Por outro lado, você deve lembrar que no mundo exterior a situação era bem outra. Foi lá por meados de 1974 que estourou a notícia de que a diretoria da GEOHIDRO,agora não mais comanda por Santini e sim por Gilberto Melão ( um peixe literalmente fora d'água) tinha sugerido à Presidência da empresa o desativamento das Regionais e a demissão de 40% do Escritório Central, agora sediado em Brasília. Isso significava que você, eu, e o pessoal mais novo da empresa ficaríamos passíveis à demissão sumária. A Crise (sic) do petróleo e a violenta explosão inflacionária que se avizinhava eram sempre as desculpas. Ah! e o desinchasso da empresa........ Seguiam a cartilha do Bruxo e seus asseclas que agora estavam na Presidência do Conselho de Administração da Empresa.
Tudo isso meu prezado amigo martelava a minha cabeça. Esses problemas e outras crises interferiam demais na minha vida em família.



Próximo capítulo: UM  ASPECTO DESFAVORÁVEL



















                                     


                                             




                            


























sábado, 17 de janeiro de 2015

                    PREZADO EDUARDO  
                     (Um livro de ficção publicado em capítulos)
                      Cap.11

      "Aqueles a quem Deus uniu, ninguém os separe"

Na Semana Santa de 1972 fui para Santa Maria visitar meus pais e demais familiares como fazia habitualmente desde que havia mudado-me para Porto Alegre. Já estava desfrutando de um razoável padrão de vida mas, faltava alguma coisa que eu não sabia bem o que era. A luz vermelha apareceu com intensidade mas, logo apagou-se.
Nesta viagem, sábado à tarde, fui visitar minha avó materna e bastante descontraído passamos quase toda o tempo conversando. Minha avó era uma mulher fora de série e sempre estava aberta a novas ideias e à evolução da vida pois tinha sempre pensamentos positivos. Ela também gostava muito de cinema e sempre falávamos sobre filmes e artistas. Com ela assisti a muitas películas com Libertad Lamarque e Rita Hayworth, suas atrizes favoritas. Teve uma vida plena e o peso de seus oitenta e quatro anos a levou serenamente em 12 de agosto de 1977. Bem, mas voltemos a 1972. Naquele sábado quando deixamos a casa da avó resolvi passar pela residencia de uns tios de minha mãe que eu não os via há muito tempo. Durante a visita conversamos, entre outros assuntos, sobre minha vida, meu trabalho e minha recente viagem à Europa. Surgiu então a inevitável pergunta para um homem de 28 anos e solteiro: "Ainda não casaste?" E eu   voltava com a resposta;" Ainda não encontrei a mulher certa". Diante de minha resposta, a tia-avó lascou:"Olha só, eu tenho uma amiga em Porto Alegre que é uma graça. Vou te dar o cartão de apresentação da mãe dela para fazeres uma visita..." Peguei o cartão e coloquei junto com outros na minha carteira. Conversamos mais um pouco  e nos despedimos.

Alguns dias depois, já em Porto Alegre, e remexendo os cartões que tinha na carteira encontrei um como o nome Anita Chaves de Ruas com endereço e telefone. Pensei: "Qualquer dia ligo". Creio que se passaram mais ou menos dois meses quando num sábado o Mauro e eu estávamos sem programa e lembrei de telefonar para a casa de D. Anita, com o intuito de conhecer Olívia, sua filha. Olívia atendeu ao telefone  e após me apresentar, conversa vai conversa vem, ela convidou-me para ir ao apartamento, onde residia com a mãe, para nos conhecermos. Acrescentou: "Se tiveres algum amigo disponível, convida-o a vir vir junto pois justamente estou aguardando a qualquer momento  a visita de uma amiga . Seria interessante uma conversa os quatro.
Como, na verdade, Mauro estava mesmo sem programa topou o meu convite e disse: "Será melhor usarmos cuecas novas pois este programa pode dar cama". Já de 'briefs" zero quilômetro partimos para o apartamento que estava situado na Av Independência, próximo ao Teatro Leopoldina. Foi Olívia que abriu a porta e no primeiro olhar que deixei cair em cima dela algo dentro de mim percebeu que que aquele encontro não seria como tantos outros que eu tivera com garotas naquele tempo. O sorriso de Olívia impressionou-me logo de saída e, creio que a partir daquele momento muita coisa começou a mudar na minha vida e creia, a luz vermelha não piscou como seria de esperar...
Ao entrarmos no living fomos apresentados à D. Anita, a mãe,  e à  Leila, a amiga de Olívia. Olívia estava razoavelmente maquiada e Leila extremamente e parecia que ia a alguma festa. Mais tarde, Mauro e eu comentamos sobre a dúvida que estávamos: Convidamos para sair? Vai dar cama?"
O apartamento estava com poucos móveis, pois segundo D. Anita  os mesmos estavam regressando  de Campo Grande,MS, em decorrência de uma mal sucedida tentativa da família transferir-se para lá onde possuíam inúmeros parentes pantaneiros. Aos poucos fomos conhecendo aquelas pessoas que acabáramos de encontrar. Olívia era filha de Elizalde Galvão de Ruas, já falecido, e de D. Anita Chaves de Ruas. Ele, de Campo Grande e ela de Corumbá, onde ambos haviam casado. Logo após o casamento vieram morar no Sul do Brasil devido à transferência do senhor Elizalde que exercia as funções que hoje, creio, seria o que se chama de Fiscal de Tributos Federais. Assim, foram para Jaguarão, onde residiram algum tempo e onde nasceu o primeiro filho, Beato e depois o senhor Elizalde foi novamente transferido, desta vez para Rio Grande onde nasceu o segundo filho Pedro. O terceiro filho, na verdade uma menina, nasceu em Jaguarão quando foram morar lá pela segunda vez. Olívia, a quarta na escalada, nasceu em Porto Alegre, onde fixaram residência pois não houve mais transferências do pai e onde veio a falecer aos 70 anos.
Por outro lado, elas também souberam da nossa ficha e a minha você já sabe: Nascido em Santa Maria,RS filho de família de classe média que lutou pela vida para conseguir, entre outras coisas,  que eu me formasse engenheiro. Por sua vez, o Mauro, de origem semelhante à minha nasceu em Rio Grande em 1943, acho que lutou pela vida mais do que eu pois com dezoito anos veio para Porto Alegre, sozinho, para trabalhar e prestar vestibular para engenharia. Hoje, nosso colega de empresa e também engenheiro.
Bem, mas naquela noite tudo ficou só em conversa e acabamos saindo do apartamento sem ter ido para a cama com as garotas.
Já na outra semana voltamos a nos encontrar, os quatro, e desta vez, com o beneplácito de D. Anita fomos apanhar Leila na casa dela para irmos a um "barzinho" (expressão tipicamente gaúcha, Edú). Mesmo com a cara torcida do senhor João, pai de Leila saímos e acabamos esticando a noite no Encouraçado, a  excelente e famosa boate de Porto Alegre.
Ainda naquela noite não deu cama mas a relação começou a tomar outros rumos e passamos ao que, naquela época, chama-se namoro. Você deve estar perguntando: E a luz vermelha? Continuou apagada, te respondo!

O Mauro, como de diz, já firme com Leila e eu com idas  e vindas com Olívia. No meio do caminho, apareceu a Tânia, professora de piano, com quem tive um breve romance. Lembro que uma determinada noite em agosto de 1972, Olívia telefonou-me às 11 horas da noite convidando-me para sair.. Secamente respondi que estava namorando com a Tânia e que não seria justo estar saindo com outra. Não era meu estilo. Na realidade eu queria mesmo sair com Olívia. Ela, voltando à carga disse: " Hoje sai comigo e passa a tua namorada para trás pois uma vez só não tem importância" Começamos e terminamos a noite no Concorde. Foi aí que tudo realmente começou....Mas, eu tinha que dar uma satisfação à Tânia e no domingo quando telefonei para ela a fim de combinar um cinema, seria o rompimento, a solução partiu dela mesma: "Hoje à noite eu não estou com vontade de sair. Estou tocando piano, Sabes o que estou tocando? A Marcha Fúnebre." Então respondi que estava bem e desliguei o telefone. Fim melancólico para um namoro sem sal e com uma mulher muito estranha.
Não pensei duas vezes e me dirigi ao apartamento de Olívia. D. Anita atendeu-me e disse que a filia estava na casa de Leila. Rumei para lá, onde o Mauro também estava e continuamos a fazer o que havíamos começado na sexta feira. Namoramos, os quatro, a até a uma hora da manhã.

A partir daquela data o namoro foi ficando realmente sério ao ponto de te-la levado a Santa Maria para conhecer meus pais e minha avó, cuja festa de oitenta anos participamos. Assim, resolvemos que iríamos "noivar" no dia dois de outubro daquele ano. Eu estava tão entusiasmado com com a ideia que cheguei a me submeter a um regime alimentar para perder os cinco quilos. E do noivado, passamos ao casamento e eu estava tranquilo pois a tal luz vermelha não mais aparecia. A cerimônia foi realizada na Igreja da Inglaterra em Porto Alegre no dia 27 de outubro de 1973, às dezenove horas com um ritual belíssimo e impecável segundo os convidados que participaram.

Em outubro de 1973, a Argentina tinha uma invasão muito grande de turistas e foi lá, mais propriamente em Buenos Aires que passamos nossa lua de mel. Foi a semana mais feliz da minha vida. Eu creio que numa lua de mel as pessoas se transformam e mudam até de fisionomia pois em quase todas as lojas e restaurantes que entrávamos sempre alguém nos perguntava: "Estão em lua de mel?"
Para mim, Buenos Aires que eu sempre a vejo e imagino em preto e branco é uma das melhores cidades do mundo e é uma gostosura suas ruas, cafés,praças e casas noturnas. O soberbo Michelangelo, as músicas de Aníbal Troilo.o "pichuque", Piazzola e o inimaginável Teatro Colón, onde assistimos a ópera "Adriana Cruvier", as carnes de "La Estância",..... Caminhar por Santa Fé e suas Galerias, Callau, Florida,Nove de Julho, Lavalle, e ainda algumas vezes ouvir, numa ou noutra loja, Amelita Baltar cantar "Balada para un loco" ou "Los paráguas de Buenos Aires. Era mesmo a felicidade! Eu queria que tudo aquilo não terminasse!....
Voltamos umas cinco ou seis vezes a Buenos Aires mas, agora já ninguém perguntava: "Estão em lua de mel?"




Próximo capítulo: "Vida em Família"

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

       Prezado Eduardo
Um livro de ficção publicado em capítulos
Capítulo 10
                                                                              TRABALHANDO DURO
                                                    De volta ao Brasil você sabe que eu mergulhei profundamente no trabalho e as mudanças sucediam-se rapidamente sendo que eu era solicitado demais. Novas diretrizes técnicas e administrativas foram introduzidas  e era difícil manejar o tempo. Foi nessa oportunidade que houve mudança na direção técnica da GEOHIDRO, ainda sediada no Rio De Janeiro. Lembro que  foi você quem me avisou que o novo Diretor Técnico seria o José Adriano Santini  a quem você muito admirava  muito e já privava da amizade dele há algum tempo. Realmente você tinha razão pois o Santini é uma das pessoas que que também muito admiro. Alem de engenheiro ele é escritor, poeta, poliglota e alem disso é uma das pessoas que mais entende de música erudita neste Pais. Nossa empresa não poderia ter melhor Diretor.
Como bom discípulo do Dr Limeira ele nunca se descuidou do aspecto humano em sua administração, tratando sempre as pessoas com urbanidade e respeito, o que aliás está cada vez mais difícil encontrar gente assim neste País. Durante o tempo que exerceu seu cargo,o fez com habilidade de mestre.
Você deve lembrar que muitas vezes Santini sentia-se embaraçado diante das minhas discussões com o Romualdo, Diretor da Regional de Minas, sobre qual Escola iríamos seguir nos nossos trabalhos ou seja, a teórica europeia ou a técnica americana, na qual eu me especializara. Santini porem, sempre assumia uma posição conciliadora e no fim tudo dava certo. Por falar em Romualdo, hoje ele eu nos damos contas que aquelas discussões  estão em segundo ou terceiro plano pois  mais importante que métodos a serem adotados e lutar com todas as forças para que o nosso trabalho seja continuado, considerando as ameaças que vinham pela frente.

Com altos e baixos levamos o trabalho de 1971 até 15 de março de 1974. Foi nesta fase que eu participei de um trabalho de medição de vazão do rio Amazonas. Estivemos no estreito de Óbidos quatro ou cinco dias no período de cheia do rio. Obtivemos um resultado, onde naquele período o rio amazonas estava descarregando duzentos e cinquenta milhões de litros d'água por segundo.  Foi um trabalho inesquecível para mim. Um manancial quase inesgotável.
Por outro lado, no aspecto administrativo, eu conduzia as questões com dificuldade mas com muita tranquilidade de espírito pois o fazia sempre dentro do orientação que meu pai sempre me transmitiu: honestidade. Assim, sempre ouvia comentários  do tipo: a regional da GEO de Porto Alegre é uma das mais bem administradas do  País. Foi também nessa época que a quantidade de cabelos brancos aumentavam dia a dia. O trabalho era duro, mas compensador.


Próximo Capítulo: "Aqueles a quem Deus uniu, ninguém os separe"


terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Capítulo 9

UMA MUDANÇA PARA MELHOR  

Quando desci do avião da Cruzeiro que me trouxe do Rio para Porto Alegre, encontrei alem dos pais e parentes, uma grande quantidade de amigos, e colegas de trabalho. Foi uma alegria revê-los pois seis meses no exterior era um tempo razoável para quem nunca havia saído do Rio Grande do Sul.

Naquela noite um casal de amigos proporcionou-me um jantar de boas vindas e para minha surpresa um dos convidados era o Dr Tertuliano. O jantar que era para ser festivo foi entremeado  de ameaças veladas disparadas  por Tertuliano. A ameça maior, em meio a conversas, era o fato de que eu seria despedido da TOPOHIDROCONSULT pois a GEOHIDRO acabara de comprar o controle acionário da nossa empresa e do corpo técnico só ele permaneceria. O resto seria sumariamente demitido.

No princípio eu fiquei preocupado mas, depois pensei: Não é possível que a GEOHIDRO vá dispensar dois técnicos rescém vindos do exterior e com uma bagagem excelente de conhecimentos. Bem, você sabe que a GEO não dispensou nenhum técnico e quando três semanas após  nosso regresso dos Estados Unidos fui chamado à sede da GEOHIDRO no Rio de Janeiro para prestar um Relatório ao Diretor da nova empresa,  Engº José Duarte de Limeira, sobre nosso curso no USNS.  Naquele dia ouvimos dele a afirmativa que dentro de alguns dias, mais precisamente em dois de janeiro de 1971 que seríamos contratados pela GEO com um excelente salário. E assim aconteceu: em 2 de janeiro a GEOHIDRO passou a contar em seu quadro com mais três  técnicos: Plauto, você e eu.
Nessa alturas corriam boatos de que Tertuliano seria transferido para Manaus  com a finalidade de montar um Escritório da GEO naquela cidade para atender a Região Norte do País.

As mudanças a partir de Janeiro ocorreram muito rapidamente e em meados de Janeiro, Tertuliano seguiu com armas e bagagens para o Norte do País. Soube-se mais tarde que ele nem chegou  a passar do Rio tal o cabedal de disparates  que ele espalhou no Escritório Central. Ora, em vista disso, criou-se um grande impasse: A GEO não o queria mais nem em Porto Alegre nem em Belem. Após marchas e contra marchas optaram pela permanência dele no Rio, face aos seus decantados contatos políticos. Porem, muito breve a sede da GEOHIDRO seria transferida para Brasília e assim carregariam Tertuliano para lá. A então sede no Rio seria transformada num Escritório Regional.

Com a saída dele de Porto Alegre a Regional ficou acéfala e  cabia ao Dr Limeira indicar um novo chefe para atuar no Sul do Brasil. Dr Limeira com sua tradicional cortesia e educação perguntou a Tertulianos qual era a opinião dele sobre o nome a ser indicado. Os nomes que estavam na pauta eram de Plauto e meu. A resposta de Tertuliano foi fulminante como um raio: Não indique nenhum dos dois! "Mas por que? inquiriu o Dr Limeira". "Porque nenhum dos dois presta". O Dr Limeira, com sua paciência mineira voltou à carga: "Como o senhor sabe, eu só disponho de dois nome em Porto Alegre e segundo me consta são muito bem preparados. Acabaram de voltar de um curso no exterior" A resposta de Tertuliano revelou a grande mágoa que, não sei porque, ele nutria sobre mim. "Então não indique o Ronaldo, coloque o Plauto"". Dr Limeira agradeceu e Tertuliano retirou-se da sala. Dr Limeira pensou: "este homem é doido e se ele indicou o Plauto, eu vou designar o Ronaldo". E desta forma, prezado amigo, a partir de março de 1971 quis o destino que, por por influência direta de Tertuliano, eu passasse a dirigir o escritório da Regional Sul que abrangia o Rio Grande do Sul e Santa Catarina.

Materialmente eu começava a entrar numa fase muito boa pois como chefe eu poderia tentar realizar tudo o que sempre sonhei para dar um tratamento adequado aos dados ecológicos e hidrológicos. Alem do mais, como funcionário da GEO o meu salário havia triplicado e em pouco tempo eu já começava até a pensar em comprar um Fusca, sonho de todo o brasileiro que melhora de vida.
As novas responsabilidades e a impossibilidade de realizar tudo o que desejava aumentou demais as minhas angustias e elas começavam a refletir-se nas primeiras rugas faciais  e no aparecimento dos primeiros cabelos brancos isso aos 29 anos. Tinha decisões duras a tomar. Era a vida! Era a realidade! Eu tinha que assumir. Uma luz que piscava em amarelo, às vezes mudava para vermelho. Esse é um outro lado da história...

Os duros fins de semana eram recompensados  pelos agradáveis fins de semana quando eu desfrutava da amizade e companhia do Mauro,  também engenheiro, que dividia um apartamento comigo,  e do Carlos Renato  e de sua irmã Hélène.
Nos sábados à noite, frequentávamos Mauro e eu, alguns bares e quase sempre acabávamos a festa na companhia de nossas inseparáveis companheiras Dulce e Romana. Essa situação durou aproximadamente um ano e nunca exigimos nada um do outro e terminamos como começamos, num clima de muita amizade. Talvez Romana nunca imaginou como foi importante em minha vida.

Eu vivia aquele período plenamente, intensamente e até realizei uma viagem de  trinta dias à Europa em fins de 1971 na companhia do Mauro, Carlos Renato e Hélène.  O Carlos Renato já estava Cachan, França, onde terminava um curso de seis meses em arquitetura de prédios públicos principalmente aqueles em construção no "La Defense", a nova París com ares modernos. Fizemos, os três, um voo sem escalas, Rio Londres, onde Carlos Renato já nos esperava para o tour.

De Londres, cruzamos o Canal da Mancha e aterrissamos em Zurich, uma das cidades mais bonitas do mundo  e por isso mesmo um dos locais que mais curti na viagem. Era estranho para nós ver os guardas de trânsito usando luvas brancas e os passageiros pagando a entrada para os bondes por meio de uma máquina e antes de subir no Coletivo. Após descerem, educadamente colocavam os bilhetes usados nas lixeiras colocadas nas estações de embarque e desembarque. Embora não houvesse fiscais todos os passageiros pagavam na máquina e a fiscalização era esporádica. Nas ruas, lojas, cafés, restaurante e  Coletivos as mulheres vestiam-se com muita elegância. Algumas com casacos de visón.

Ficamos hospedados no Hotel du Théatre" situado próximo à parte antiga da cidade. Passamos tês dias lá e Mauro e eu curtimos muito a noite de Zurich. Resolvemos, então, fazer uma curta viagem às montanhas nos arredores da cidade. No topo da montanha, ao descermos pelo teleférico. éramos seis pessoas: Carlos Renato, Hélène, Mauro, eu e um casal. A senhora perguntou-nos em bom português: "São brasileiros?""De que lugar do Brasil?" " Nós somos de Porto Alegre!!" Ora, a risada foi geral. Seis pessoas num teleférico nas montanhas de Zurich e brasileiros.... de Porto Alegre!  Era coincidência demais. Estivemos com o casal Lock durante o resto do dia. À noite, como ágape, num delicioso e inesquecível Fondue de Queijo.

Depois que regressamos a Porto Alegre tentamos contato com D. Edila e o senhor Amaury Lock. Porem eles nunca nos responderam a gentileza. São coisas que não entendo.

Ainda em Zurich apanhamos um carro já previamente locado e partimos para conhecer a tão decantada Europa. O Fiat super esporte, locado, conduziu-nos à Alemanha,Austria, Itália, França, Mônaco,Espanha e Portugal.

Durante a viagem tive alguns atritos com Carlos Renato pois ele defendia ferozmente  e sem restrições a cultura francesa eu contra-atacando com a cultura americana. Que estupidez! Sempre continuei achando que os americanos são muito práticos em tudo o que fazem e os franceses são teóricos e muito complicados. Reconheço que as discussões foram estéreis e não sei como como o Carlos Renato com alguns anos mais de experiência permitiu que aquilo fosse levado adiante. De qualquer forma, os americanos foram, até agora, os únicos que conseguiram colocar um homem na Lua.... Tecnologia.

O FIAT continuava rodando e ao entrarmos no Norte da Itália foi fácil observar que  entráramos num País latino. No primeiro restaurante que paramos, a cozinha não era visível ao público e os pratos utilizados voltavam para o mesmo lugar de onde saiam os alimentos para serem servidos e o banheiro há  muito tempo não era higienizado. Em países mais desenvolvidos, a cozinha está sempre à vista dos clientes e os pratos utilizados seguem para outro local que não a cozinha.

Prosseguimos a viagem para Roma onde conseguimos um hotel três estrelas onde provavelmente uma ou duas deveriam estar piscando ou apagadas dadas as condições do local. Esses contratempos foram recompensados pela beleza da Itália e pela exuberância de seu linguajar. Digno de nota é o Estado do Vaticano, encravado em Roma e exibindo belezas extraordinárias como a Pietá antes de ser danificada. Também destaco Florença com suas incríveis obras de arte como o David de Michelangelo e a quase indescritível Veneza onde foi possível olhar e sentir a Praça de São Marcos, onde Vitório de Sicca tomava seu capuchino, o Palácio dos Dodges, com as obras de Tinttureto, e os famosos canais onde táxis são barcos e ônibus são lanchas...

Ainda não havia eclodido  a crise (sic) do petróleo e abastecíamos o Fiat com gasolina "super".. Seguindo viagem nos dirigimos para a Espanha passando primeiramente por um local deserto por vários e vários quilômetros. Confesso que já estava entrando num processo angustiante quando avistamos uma espécie de posto de gasolina e restaurante. Paramos para tomar algo e a garçonete, que parecia a única habitante do local, lançou-nos um olhar como se fôssemos de outro planeta. Embora falássemos Espanhol ela parecia que fazia questão de não entender. Creio que ela sentiu-se aliviada quando o colocamos o carro em movimento.

Barcelona, Valencia, e Madrid  impressionaram-nos pelo gigantismo e agito das pessoas. Em todas elas havia homenagem ao "Generalíssimo"  colocando seu nome em praças, ponte, ruas, autopistas.....Os guardas de trânsito, por sua vez, ofereciam um espetáculo à parte pois dirigiam o trânsito de uma forma que pareciam toureiros! Foi de parar para assistir.

No rumo de Lisboa entramos num restaurante de uma pequena cidade para jantar. Creio que era o único da cidade e somente duas mesas estavam ocupadas e ao passarmos os quatro por uma delas, um garoto de mais ou menos nove ou dez anos  comentou em voz alta com o casal que estava junto: "Olhe papai quantas pessoas". Imagine essa frase como sotaque português de Portugal...
Em Lisboa, o Rocio a Praça dos Restauradores, bacalhau à Gomes Sá, lagosta ao termidor, uma subida de bonde à Lisboa Antiga e ao magnífico restaurante "O Forcado" que oferecia excelentes refeições e um belíssimo show de fados. Em todos os lugares públicos que estivemos havia um mapa de Portugal agregando todas as suas colônias e sobreposto a um mapa da Europa. Mostrava claramente um Portugal bem maior que a soma dos territórios de vários países europeus e abaixo uma inscrição: "A verdadeira dimensão de Portugal."

Ao deixarmos Lisboa fomos parados numa barreira de trânsito onde o policial pediu-nos os documentos do carro. Entregamos o contrato de locação e o policial o reteve  e mandou-nos prosseguir. Mauro que estava dirigindo o carro, intrigado com a situação, perguntou ao policial: E se em outra barreira nos peçam o documento, como faremos: O guarda foi rápido na resposta: "O senhor diz que já entregou, pois". Vendo nossa cara de espanto entregou-nos um  folheto educativo de trânsito. Lemos as recomendações sendo que na última estava escrito: "e onde se ler 'stop', é mesmo para parar!"

No dia vinte e quatro de dezembro de 1971 o Fiat nos conduzia até Paris. Alguns quilômetros antes da "cidade luz" resolvemos parar num acolhedor restaurante para saborear um "croc monsegneur". Ótimo! Na saída, Mauro necessitou ir ao toillete e ao voltar disse: "sabem como é a instalação sanitária deste local? É uma espécie de "casinha" com um buraco no chão e sem papel higiênico". Isso, a poucos quilômetros de Paris.

Na noite de Natal, após nos instalarmos num razoável hotel em Porte d'Orleans, fomos jantar um "osso buco" no restaurante "La Chaumiére" no Quartier Latin.  Uma beleza Paris na noite de Natal. O movimento no Quartier era intenso e ainda pudemos chegar ao "Champs Elysées" e admirar sua perspectiva iluminada. Indescritível!

Quando entregamos o Fiat na agencia francesa da "Maggiore" recebemos em dinheiro a quantia equivalente à quantidade de gasolina que restara no tanque.  Àquele procedimento recebeu o seguinte comentário de Hélène: "Acho que a França é o menos latino dos países latinos..."

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Prezado Eduardo - Cap. 8 - OUTONO

OUTONO

Sempre aguardo com grande expectativa o final do mês de março porque na maioria das vezes já no início de abril começam a aparecer nas ruas as primeiras folhas amareladas, principalmente de Plátano, parecendo produzir uma sensação de renovação.

No Hemisfério Norte, pelo menos na latitude em que me encontrava, isso acontecia já no início de outubro mas a quantidade de folhas era muito superior à existente aqui.

Na minha última semana em Washington naquele mês de novembro de 1970.após concluir, antes do prazo,meu Relatório de final de Curso caminhava sozinho no meio daquelas folhas em queda que proporcionavam ao tapete dourado Com a temperatura já em declínio eu desfrutava a notável paisagem oferecida pelo outono do Hemisfério Norte. Washington é uma cidade linda e simbólica. onde dizem que a porta de entrada é o monumento a Lincoln. Aquela beleza sem dúvida era realçada pelo sentimento que me dominava naquele período: uma paz interior muito grande e que nunca se apagou de minha mente, nem no terrível tempo sinistro que iria passar logo após quinze de março de 1974, o período mais terrificante de nossa vidas.

Em 1952 chegava ao Brasil o maestro Bruce Beaber da Orquestra Filarmônica de Boston para iniciar um trabalho de dois anos  no Brasil, junto a Fundação Cultural Anglicana (FCA). O maestro Beaber passou a desempenhar suas funções na FCA que em Porto Alegre, naquela época,tinha sua sede situada em Teresópolis.

Foi num dia  escaldante do verão porto-alegrense em 1953 que numa viagem de bonde ao centro  Bruce sentou-se ao lado de Lenira   filha de Américo Souza, Diretor da FCA e de Julinha Sousa, professora de Artes Por várias veze ele já haviam se encontrado nas  reuniões preparatória para formar a Orquestra Filarmônica da Fundação . Mas tudo não passou se simples conversas de trabalho. Agora, no bonde , encontravam-se a sós e longe dos olhares indiscretos da então sociedade tradicional que frequentava a Fundação.  No bonde  iniciaram um namorisco, que virou namoro sério com a discreta porém firme oposição do casal Souza. De nada adiantou a oposição pois o noivado aconteceu dez meses depois  com a promessa que Bruce não voltaria aos Estados Unidos a não ser a passeio. Fixariam residência aqui. A Promessa tranquilizou a família Souza. O casamento aconteceu logo em seguida e o casal vivia plena e placidamente em Teresópolis. Nem mesmo uma visita a passeio aos Estados Unidos estava programada para curto prazo.

Foi então que Bruce começou a ter problemas de saúde. No princípio um quase nada e de repente virou coisa séria, tão séria que os médicos brasileiros o desenganaram. Não satisfeito com o diagnóstico realizado, mudou-se para os Estados Unidos com armas, bagagens e a esposa que àquela altura estava grávida. Os médicos americanos disseram que o assunto era sério mas não tão grave assim. Precisava de um tratamento intensivo nos Estados Unidos e um controle periódico da situação. Dessa forma o fixaram residência em Boston onde nasceu Susan e três anos depois Beverly

Isto aconteceu há vinte e seis anos e hoje Bruce está bem de saúde, morando em Boston e divorciado de Lenira que por sua vez mora  com Susan em Washington,DC e Beverly alterna residência com os avós maternos no Brasil e seu pai. Todavia, em 1970 o casal Beaber ainda vivia junto e com as duas filhas  em Prince of Wales,Maryland. Estavam lá temporariamente porque o Maestro desenvolvia em Baltimore o "Projeto Mozart" junto a Orquestra Municipal para Jovens. Devido a meu conhecimento prévio com o casal através da Comunidade Anglicana, fui convidado por eles a passar dois dias hospedado em Prince of Wales. A residência dos Beaber era uma típica casa americana de madeira branca, com pingadeiras  no meio de um pequeno bosque. À noite dormi no sótãoo sono dos justos pois o silêncio chegava a doer os ouvidos! Acordei por volta  de sete horas com o cantar dos pássaros  e sentindo o cheirinho de ovos mexidos que estava sendo preparados. Por coincidência, naquele dia no estado de Maryland estava havendo uma espécie de consulta popular onde o povo manifestava seu desejo com relação a emendas em duas ou três Leis.

De retorno a Washington,DC tentei aproveitar ao máximo os dias que lá nos restavam caminhando pela cidade. As caminhadas iniciavam às nove horas da manhã e se prolongavam  até às dezesseis hora quando o sol começava  seu ocaso. Num daqueles dias estendi meus passeis até Arlington, Virgínia e lá alem de conhecer  Miss Williams, nossa programadora de curso, visitei o Cemitério de Arlinton onde se encontram sepultados a maioria dos heróis deles. Ardia junto ao túmulo de John Kennedy uma chama eterna.

Um fato curioso, pelo menos para nós brasileiros, aconteceu comigo quando o táxi que me trazia de Arlinton a Washington,DC até o Presidential Hotel, meu ponto de destino. De acordo com as normas de cobrança por áreas vigentes na capital americana eu deveria pagar ao motorista três dólares  e setenta e cinco centavos. Entreguei uma nota de cinco dólares e esperei o troco. Então, pela primeira vez ao longo daqueles seis meses ouvi a seguinte frase:"Eu não tenho troco. Será que o senhor não tem a quantia exata?" Respondi que não, mas  se ele esperasse alguns segundos eu iria fazer troco na portaria do hotel. Para minha surpresa esta foi a resposta do motorista."Não senhor. É minha obrigação ter troco para lhe dar e se o senhor não dispõe da quantia exata, então nada me deve...."

Chegou o dia seis de novembro. Novas despedidas formais, promessas de cartões postais do Brasil e votos de bom desempenho nas tarefas que nos aguardavam.

De repente já estávamos no avião da Eastern Airlines que nos conduziria a Nova York, Aeroporto Internacional John Kennedy. Havia um enorme congestionamento aéreo e apos a aterrissagem ainda rodamos alguns quilômetros de limousine para chegarmos ao terminal da Pan American. Não esperávamos aquele transtorno e por isso não tivemos tempo nem de ir ao banheiro pois o avião já estava pronto para decolar. Quando chegamos ao balcão do check-in a atendente me disse: "O senhor sabe que neste voo também viaja o famoso "soccer player" Pelé?

Entramos no avião e creio que em cinco minutos procedeu-se os preparativos internos para a decolagem. Quando o avião já estava no ar, olhei pela janela e disse a Plauto: "Será que num dia voltaremos?"

Como Pelé viajava na primeira classe sequer o vimos mas, ele era sem dúvida o comentário preferido dos passageiros. O Voo foi muito tranquilo e lá pelas seis horas da manhã, já no horário brasileiro, descíamos no Galeão. O calor era insuportável agravado pelo fato de estarmos vestidos  de acordo com o outono americano. Após passarmos pelos nosso amáveis fiscais alfandegários um carregador apressou-se para nos ajudar com a s bagagens. Quando chegamos ao local que pretendíamos no aeroporto entreguei uma nota de dez cruzeiros a título de gorjeta.Ele me olhou com um certo desprezo e exigiu o dobro. Não discuti e paguei. Então me dei conta que definitivamente havia regressado e que estava na hora de voltar a conviver com o "jeitinho", a "esperteza" e o calor. O outono havia terminado.

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Prezado Eduardo - Cap. 7 - A DEPRESSÃO

A DEPRESSÃO

Na medida em que os assuntos iam se esgotando, começamos a perceber em você o início de uma leve depressão pois volta e meia retornava o assunto que mais o amedrontava: o nosso regresso ao Brasil marcado para o dia sete de novembro daquele ano de 1970. O motivo seria a sua permanência sozinho nos Estados Unidos por mais algum tempo. Não sei se você lembra que por sua vontade não veio conosco em maio porque queria assistir ao vivo a "copa do mundo de futebol" que se desenrolaria no México. Tentamos várias vêzes convencê-lo de que a coisa não seria assim tão difícil mas você quase sempre se mostrava irredutível.

A situação às vezes se agravava devido à completa desilusão que você estava tendo com o trabalho. Definitivamente concluímos que o seu tipo de atividade era muito mais voltada à pesquisa matemática e estatística puras do que trabalhos práticos. Entretanto, não era possível mudar o rumo das coisas pois tudo havia sido acertado para um tipo prático de trabalho e os americanos  não costumam "dar um jeito". Assim, em vez de ter solicitado ingresso na Universidade de Illinois, você optou por experimentar o lado dos avanços tecnológicos pois aí estavam as nossas carências. Desta forma, continuamos com o Programa já estabelecido para nós três.

Você também nos trouxe uma notícia boa pois falava-se no Rio que a GEOHIDRO S.A. havia adquirido o controle acionário da TOPOHODROCONSULT a qual pertencíamos. Isto significava um substancial aumento dos nossos salários alem do que passaríamos a ter um vínculo empregatício dentro das normas legais. A nova Empresa surgida era forte e trabalhava em âmbito nacional. Conversávamos muito sobre o Brasil e o que iríamos produzir lá utilizando nossos conhecimentos de última geração. Os sonhos eram muitos: um apartamento melhor, um carro, casar com uma linda brasileira.... Mal imaginávamos o movimento sinistro e autoritário que iria acontecer pouco depois de quinze de março de 1974.

Mas, os fins de semana não não se resumiam só a conversas  pois assistimos vários espetáculos teatrais quando estivemos em Chicago mais uma vez e agora junto com você. Os destaques ficaram, para um espetáculo com Ella Fitzgerald e o especialmente fabuloso "HAIR"

    "Let's  the sushine.....When the moon is in the seventh house..."

Após termos cumprido nosso programa no estado de Illinois dirigimo-nos para uma curta permanência em Madinson, Winsconsin. Lá o trabalho seria um pouco diferente pois você permaneceu nos escritório estudando alguns processos estatísticos sobre enchentes enquanto Plauto e eu desenvolveríamos alguns trabalhos de campo. Assim, Plauto foi designado para acompanhar  e instalação de um "cable car" que atravessaria a seção transversal de um rio para medições de vazão em cotas muito altas e eu ajudei na instalação de uma "calha Parshall" para medições de vazões muito pequenas  e em águas extremamente baixas.
Durante uma semana só nos encontrávamos à noite e extremamente cansados não tínhamos quase tempo de conversar. Durante a instalação  da "calha" trabalhei com um colega que estivera  no Vietnan e num dia frio ele me emprestou um capote que ele usara durante a guerra. Bill era um sujeito muito quieto mas muito revoltado e não escondia suas posições de esquerda. Naquele tempo, eu ainda estranhava uma manifestação aberta daquele tipo. Foi com Bill que eu aprendi a expressão "WASP", ou seja: White, Anglo-Saxon e Protestante,ou seja: Branco,Anglo Saxão e Protestante. Ora, eu mesmo era esquerda moderada, branco, e protestante, mas nunca concordei que  só eram confiáveis os WASPS. Alguns americanos pensavam assim mas, certamente eram uma minoria pois nunca fomos alvos de discriminação.

Estávamos agora de partida para Ocala, Florida e o seu suor e olhar tenso indicavam que o avião ainda não havia atingido os três minutos de voo que, segundo suas palavras, eram críticos pois qualquer falha aquele período de tempo não permitiria o avião manter-se no ar. Eu achava aquilo um tanto engraçado mas, em todo o caso respeitava sua opinião. Quanto mais nos aproximávamos da Flórida a sua tensão aumentava pois também estava mais próxima a data do nosso regresso ao Brasil.

Em Ocala, Flórida, a aridez da tensão foi substituída pelo oásis do relaxamento. Claro que você deve lembrar! Chegamos de manhã cedo no escritório local do USNS e de saída fomos carinhosamente recebidos pelo sorriso de Dorothy ou simplesmente Dotie, como ele gostava de ser chamada. Todo pessoal do escritório era muito gentil e desta forma ficamos completamente à vontade. No serviço você resolveu nos acompanhar em alguns trabalhos de campo. e pareceu-me que não achou tão ruim assim. Lembro que também que desenvolveu alguns estudos de modelos matemáticos com Carl, o especialista deles nessa área.

Vocês se pareciam muito: durante o dia ávidos por estatística e modelos matemáticos e à noite músicos. "Que bom que o Edú se entrosou, pensava eu".
As coisas ficaram ainda melhores quando, ao regressarmos ao escritório, numa tarde, Dotie desculpando-se de um convite seu para sair  à noite disse:"Desculpe-me, mas eu estou  noiva e você certamente compreende a situação. Porem vou apresenta-lo a nossa colega Peggy, que acabou de chegar de um serviço de campo. Tenho certeza de que ela ficará encantada em sair com você".

E assim foi feito. Peggy  nos foi apresentada! Era uma garota loira, estatura mediana e muito bem feita de corpo. Você ficou de boca aberta e parede que se apaixonou de saída. Como previsto, ela aceitou seu convite e dirigiu-se a mim perguntando  se eu gostaria de ir junto pois ela tinha uma amiga que sem dúvida aceitaria sair comigo.

Combinamos que elas passariam no hotel às 8:30 da noite para nos apanhar. Lembro bem que quando ela se afastou  dizendo "até logo", ficamos os dois  olhando aquele caminhar meio desajeitado, com um corpo muito bem proporcionado enfiado dentro de uma calça jeans. "Que graça!" foi a sua expressão.

Às 8:30 um Mustang estacionou na porta  do hotel e dentro dele estavam Peggy e uma outra loira. As apresentações foram formais e Cathy era quase da minha altura. Muito bonita tanto de rosto quanto de corpo. Como estávamos os quatro preparados para jantar  fomos conduzidos até um restaurante  chamado"1825 House". Ficava situado na Main Street nº 1828.Mas o nome do local não se devia somente ao endereço mas também à decoração interna. O estilo reproduzia exatamente a época de 1825 diziam eles. O alimento era delicioso, precedido por Daiquiris e seguidos de vinho da California. Talvez por isso, ficamos todos mais desinibidos e elas logo nos colocaram apelidos: Ed e Ron. Em contrapartida Peggy foi apelidada de Patinho e Caty de Brisa Loira. Mais tarde percebi que ela poderia ter sido apelidada de Ventania Loira, dependendo das circunstâncias.

Após o jantar, fomos dançar no Talahasse Nigth Club, uma casa noturna em nada diferente das nossas. Foi um acerto total e depois dos primeiros minutos de rostos colados já estávamos aos beijos. Lá pelas tantas chegou a tradicional hora de elas irem no "Elas" e nós no "Eles". Voltamos primeiro  e naquele momento estávamos tão envolvidos por elas que nem falávamos um com o outro. Ao regressarem elas não chegaram a sentar-se e Peggy disse algo como:"vamos continuar desfrutando".

O Mustang dirigiu-se placidamente para o "Silversprings Inn" situado nas margens  do lago formado por uma vertente de água subterrânea em terreno calcareo e por isso com águas extremamente transparentes e límpidas. No resto daquela noite Edú você foi acolhido nas asas do patinho e eu ora sentia uma brisa ora sentia uma ventania...... loira.

Durante o período que estivemos em Ocala era raro o dia em que não saíamos com Peggy e Cathy. Elas eram sensacionais: Peggy ,21 anos, estudava engenharia e trabalhava no USNS tanto em serviços de campo como em serviços de escritório.Morava só num apartamento e os pais tinham uma pequena granja nos arredores de Orlando,Florida. Cathy, 20 anos morava com a avó, estudava Psicologia e trabalhava como Auxiliar de Conselheira na "Holly Family High School". Eram assim, típicas representantes da nova mulher americana: emancipadas,responsáveis,com iguais oportunidades de emprego e salários que naquela época começava a surgir nos Estados Unidos.

Lembro agora aquele agradável fim de tarde  e início de noite em que Cathy nos esperava  na saída do escritório.Ela nos convidara, os quatro, para circularmos juntos no Bowling Green Mall pois tinha algumas compras a fazer. Entramos no carro e rumamos para o Sudoeste onde estava situado o Mall. Para que se tenha uma ideia do que era o "Shopping" somente uma das lojas que o compunham devia ter a dimensão do nosso "Centro Comercial da Azenha" Era um dos maiores que eu já havia visitado. Podia-se adquirir no Mall tudo o que se pode imaginar sem falar na belíssima e gostosa Praça da Alimentação e dos cinco confortáveis cinemas.

Passamos primeiro numa loja feminina onde Cathy adquiriu algumas peças de roupa. Depois fomos ao Supermercado para comprar os ingredientes para o jantar que iria ser preparado a oito mãos! Elas não eram adeptas de fast food ou TV Dinner e assim adquirimos carnes,verduras e frutas. Após, andamos mais um pouco dentro do Mall olhando uma coisa ou outra Peggy então sugeriu que entrássemos numa loja de discos e assim percebi que Peggy era apreciadora de música erudita. Dirigimo-nos ao sub solo da loja "The sound of Music". O local era deslumbrante. Havia à disposição dos fregueses dez cabines de som  com lugares confortáveis,tranquilos e à prova de som para cinco pessoas em cada uma delas. Os equipamentos eram de primeiríssima qualidade e você poderia ouvir, confortavelmente instalado, as músicas previamente selecionadas fora das cabines,isto é, no setor de atendimento personalizado. O setor contava com dez jovens entre homens e mulheres  que atendiam e prestavam informações sobre as músicas solicitadas. Estivemos lá dentro por mais de uma hora e confesso que não estava com vontade de sair. Lembro que ouvi alguns trechos das obras de Mozart, li alguma coisa sobre Kehel, o organizador de sua obra, Beethoven, Shostacovitch e Ravel, meus compositores favoritos, Peggy adquriu  "Sherazade" de Rimski-Korsacov e partimos, os quatro, para a casa de Peggy que carinhosamente ela chamava de "my place". Um apartamento pequeno mas decorado com a graça e a personalidade da dona.

Tomando "Bourbon" do Tenessee nos aconchegamos  numas almofadas e desfrutamos  os quatro movimentos do mais novo componente da discoteca de Peggy. Parecia que o sonho não iria acabar.

O nosso envolvimento com Cathy e Peggy se tornara por demais sério e na medida que se aproximava  o dia da minha partida uma angustia ia tomando conta dos quatro. Elas chegaram a propor que não voltássemos para o Brasil mas, sabíamos que aquilo seria quase impossível. Ah, se eu soubesse o que aconteceria ao nosso País  e particularmente a nós,a partir de 1974, eu teria movido mundos e fundos para lá permanecer para sempre. Conseguimos prolongar aquele estado de coisas mais do que esperávamos pois mesmo depois de nossa partida  de Ocala para Tampa, meu derradeiro lugar do treinamento, tivemos o convívio de Cathy e Peggy por mais algum tempo. Acontece que Tampa ficava cem quilômetros distante de Ocala e isso permitiria que nas sextas-feiras à noite o Mustang nos trouxesse alegria. Você desfrutou aquela alegria por mais tempo pois permaneci em Tampa junto com Plauto somente mais três semanas. O dia sete de novembro de 1970 aproximava-se inexoravelmente e Plauto e eu deveríamos  viajar para Washington, DC a fim de preparar o Relatório Circunstanciado de Final de Curso. Foi duro para mim dizer adeus a Cathy naquele dia de Holloween! Você foi ótima meu amor, você foi maravilhosa! Como fui feliz  naqueles dois meses.... dois meses de num oásis de sol, paz, brisa e ventania.