sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

                 PREZADO EDUARDO                                                                                                                (Uma história de ficção  publicada em capítulos)
              (Todos os direitos reservados)
              Cap. 14  

                       Encontro Semanal

                                       Com o objetivo de aliviar ou pelo menos tentar compreender as pressões internas e externas,eu estava decidido procurar um psiquiatra pois na realidade eu não teria nada a perder. Custaria caro, isto sim,mas, àquelas alturas dinheiro não teria tanta importância para mim. Seria o caso de "pedir empréstimo num banco", ela tripudiou. Creio que pensei no assunto durante dois ou três dias. As crises aumentavam.... e quanto mais aumentavam mais tripudiava a suposta aleivosa,digo suposta pois  ainda não havia me contado  seus atos correlatos. Eram pura desconfiança minha e eu não tinha nem como procurar provas....
Todos esses fatos me encorajaram a finalmente conversar com meu amigo Dr Waldir Bortolotto, médico urologista, para que ele me indicasse um psiquiatra. Waldir indicou-me o Dr Nei Felício Santiago. "Ele é um sujeito muito estudioso e tenho ótimas referências dele", acrescentou Bortolotto. Tentei marcar consulta pelo telefone diretamente com o Dr Santiago e ele me disse que gostaria de me atender mas que não tinha horário disponível porém,  ele iria anotar meu telefone  e assim que houvesse uma vaga ele me chamaria. Não é necessário dizer que eu me sentia completamente abandonado.

Com muito estoicismo eu superava os momentos mais difíceis e não chegou a haver o caos tão temido no que se referia ao meu trabalho.

Finalmente o Dr Santiago ligou e em seguida eu estava me dirigindo ao seu consultório no centro de Porto Alegre. Um local singelamente decorado e muito  agradável. O Dr Santiago me recebeu muito bem e de saída vi que era uma pessoa legal. Ele era mais ou menos da minha idade e muito gentil. Contei-lhe em linhas gerais  o que estava acontecendo comigo e ao concluir não escondi o fato de saber que aquele tratamento era longo  e caro  e eu não teria condições financeiras de prosseguir.
Eu estava naquele momento num num profundo estado de angustia e me sentindo tremendamente humilhado e ameaçado. Não era fácil admitir a ideia que meu filho iria ser criado longe de mim... O Dr Santiago ouviu pacientemente todas as minhas observações e finalmente interviu.  "O senhor é livre para decidir sobre sua vida, entretanto eu creio que o senhor está precisando de ajuda  e não será por falta de recursos financeiros da sua parte que eu vou deixar de atende-lo. Vamos conversar mais sobre isso. Veja bem, eu não sou comerciante, sou médico e vivo da minha profissão, portanto eu tenho que cobrar pelos serviços que presto. Vamos ver quanto o senhor ganha e o quanto poderia me pagar. Quem vai fazer o preço é o senhor Dr Ronaldo e não eu" Feitas as contas, eu conclui que poderia pagar US$50.00 a consulta, uma vez por semana. Quando me dei conta, o Dr Santiago aceitou a proposta sem a mínima objeção. Era óbvio que o preço que eu propus era muito menor do que ele estava acostumado a cobrar da média dos pacientes.  Ele colocou uma única restrição: só poderia me atender às segundas feiras à noite das vinte e uma às vinte e uma e cinquenta.
E assim, meu prezado amigo, eu comecei o meu longo processo de análise e terapia que, no início, foi muito difícil e doloroso: estava começando  a descascar meu ser para o Dr santiago realizar o que ele chamava de "trabalho artesanal".
Eu frequentava a poltrona do Dr Santiago uma vez por semana e as conversas que eu mantinha com ele me ajudavam muito a carregar aquele fardo. Lembrei-me o que aprendi na Igreja da Inglaterra: Deus nunca nos dá um fardo mais pesado do que aquele que podemos carregar. Houve dias em que eu saía bem do consultório e outros saía arrasado. Entretanto eu compreendia que aquilo fazia parte do complexo tratamento ao qual eu estava sendo submetido.
Para agravar ainda mais a situação, foi justamente nesse período de crise que aconteceu o incêndio das Lojas Renner, aqui em Porto Alegre, que por força das circunstâncias eu havia presenciado bem de perto pois o escritório da Regional ficava quase em frente.

O elefante havia sobrevivido à picada do escorpião embora com muitas sequelas e a luz vermelha foi esmaecendo até ficar quase apagada mas, ainda estava lá. Porém agora a compreensão era outra.
Algumas pessoas reagiam fortemente quando sabiam do meu tratamento e não tinham a mínima ideia sobre o conceito de saúde mental. Os aproveitadores de ocasião diziam: "eu te faço essa tal de terapia pela metade do preço pois tu falas,  eu escuto e te dou uns palpites" Outros diziam: "Deve ser difícil conviver com uma pessoa desequilibrada....." Todas essas coisas fizeram-me lembrar de um filme que eu assistira há muitos anos e que no epílogo da película era focalizada uma placa fixada na frente de um Hospital Psiquiátrico com os a seguinte frase: "São todos os que estão? estão todos os que são?



Próximo capítulo: "Viajando inopinadamente"





                     






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