sábado, 24 de janeiro de 2015

                                                   PREZADO EDUARDO
     (Uma história de ficção publicada em capítulos)
                 Todos os direitos reservados
                  Cap. 15


                       Viajando inopinadamente

Eram mais ou menos 18h:30m quando eu estava desembarcando no aeroporto de Congonhas. Chequei os documentos e a bagagem e dirigi-me diretamente à ala internacional. Lembro-lhe que  o aeroporto de Guarulhos ainda não existia e as duas saídas do Brasil, via aérea, só eram  Congonhas e Galeão. Lembro que o aeroporto estava muito frio e este fato de certa forma amenizava a minha inexplicável angústia.
Como faltavam ainda duas horas para o voo procurei um lugar no saguão para sentar e, apenas com minha valise da mão e meu capote adquirido em Londres, acomodei-me numa poltrona próxima. Permaneci algum tempo sentado e sem saber bem porque, levantei-me e me dirigi ao quiosque de chaveiros de acrílico e adquiri um em forma de prisma retangular e solicitei que fosse inscrita a palavra FREEDOM.  Neste chaveiro coloquei uma chave muito pequena, mas muito bem acabada, parecia uma joia, e que não lembrava onde havia adquirido e tão pouco foi parar no meu bolso. Olhando fixamente para a chave  e o chaveiro comecei a relembrar alguns fatos ocorridos na semana. Logo após minha volta de uma viagem a serviço a Brasília o mundo continuava a desabar  sobre mim e mesmo assim eu procurava, de alguma forma, buscar alternativas para refazer minha vida. Seriam já os primeiros resultados do "artesanato" que o Dr Santiago trabalhava comigo? Creio que por volta de onze horas da manhã da quinta-feira dois de abril de 1976 minha secretária entregou-me um telex do novo Diretor Técnico da empresa, Dr  Melão, cujo teor era o seguinte: "Informo a VSa. que o indiquei para participar no Seminário sobre Recursos Naturais a realizar-se no período 13 a 15 do corrente em Jackson, Mississipi-Estados Unidos. Saudações. Manoel Melão, Diretor Técnico."
Daí para frente foi uma corrida contra o tempo: malas, roupas, visto no passaporte, compra de travellers checks etc. De repente ali estava eu, pronto para mais uma viagem ao exterior. O voo até Miami foi tão tranquilo que nem senti e nem mesmo aceitei o jantar. Estava exausto e devo ter dormido toda viagem pois nada lembro.

Chegando a Miami a conexão prevista era imediata pela American Airlines e demorei poucos minutos na área de imigração. Já em Jackson, Mississipi dirigi-me de táxi para o Hotel Golden Dream em cujo salão de convenções iriam realizar o Seminário. A Abertura do evento se daria naquela noite, e como faltassem ainda algumas horas, após o almoço, recolhi-me ao apartamento para olhar com mais detalhes a pauta do seminário. Por volta das sete da noite fiz minha inscrição, apanhei a pasta e demais documentos e  comecei a caminhar pelas adjacências do Salão de Convenções. O Hotel era o mais luxuoso entre os que eu já havia me hospedado nos Estados Unidos.Toda a decoração era em tons de verde e embora eu estivesse só, sentia uma paz profunda.
Subitamente, passa por mim alguém com "aquele caminhar meio desajeitado", "baixinha e com um corpo perfeito.......... "Não é possível", pensei. Mas era. Era possível sim! Tinha tanta certeza que era ela  de tal forma que apressei o passo  e exclamei: "Peggy!" Ela olhou-me e tão espantada quanto eu respondeu: "Ron!" Abraçamo-nos... olhamo-nos,...abraçamo-nos de novo.... Era incrível Edu! Peggy estava ali como uma das representantes do NS no seminário! Eu sei que é difícil de acreditar! Começamos a caminhar, de mãos dadas, e olhando um para o outro sem dizer nada. Quando me dei conta, estava no apartamento dela. Depois de nos abraçarmos e beijarmo-nos longamente, começamos a nos despir. Peggy estava como corpo mais lindo do que nunca. Amamo-nos profunda e intensamente naquela noite. Creio que adormecemos quando o sistema de som do apartamento tocava "Danças Polovtzianas do Prícipe Igor" de Alexander Borodin. Eu me sentia "um estranho no Paraíso"....

Acordei ouvindo os acordes de "Velha Gaita" do folclore gaúcho, misturado a um sinal sonoro indicativo de hora certa. Era a Rádio da Universidade Federal do Rio Grande do Sul que iniciava suas transmissões que eu recebia através do meu rádio despertador. A sensação de felicidade foi se transformando em frustração e o único fato concreto do meu amor com Peggy naquela noite de dois para três de abril de mil novecentos e setenta e três era o lençol ainda umedecido. E enquanto o locutor da rádio anunciava o Concerto nº 4 para Piano e Orquestra de Rachmaninoff, no Concerto Matinal, eu fazia um movimento circular com o braço direito em direção ao lado vazio da cama, na vã esperança de ali encontrar Peggy.




Próximo capítulo:   O amigo que parte


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