OUTONO
Sempre aguardo com grande expectativa o final do mês de março porque na maioria das vezes já no início de abril começam a aparecer nas ruas as primeiras folhas amareladas, principalmente de Plátano, parecendo produzir uma sensação de renovação.
No Hemisfério Norte, pelo menos na latitude em que me encontrava, isso acontecia já no início de outubro mas a quantidade de folhas era muito superior à existente aqui.
Na minha última semana em Washington naquele mês de novembro de 1970.após concluir, antes do prazo,meu Relatório de final de Curso caminhava sozinho no meio daquelas folhas em queda que proporcionavam ao tapete dourado Com a temperatura já em declínio eu desfrutava a notável paisagem oferecida pelo outono do Hemisfério Norte. Washington é uma cidade linda e simbólica. onde dizem que a porta de entrada é o monumento a Lincoln. Aquela beleza sem dúvida era realçada pelo sentimento que me dominava naquele período: uma paz interior muito grande e que nunca se apagou de minha mente, nem no terrível tempo sinistro que iria passar logo após quinze de março de 1974, o período mais terrificante de nossa vidas.
Em 1952 chegava ao Brasil o maestro Bruce Beaber da Orquestra Filarmônica de Boston para iniciar um trabalho de dois anos no Brasil, junto a Fundação Cultural Anglicana (FCA). O maestro Beaber passou a desempenhar suas funções na FCA que em Porto Alegre, naquela época,tinha sua sede situada em Teresópolis.
Foi num dia escaldante do verão porto-alegrense em 1953 que numa viagem de bonde ao centro Bruce sentou-se ao lado de Lenira filha de Américo Souza, Diretor da FCA e de Julinha Sousa, professora de Artes Por várias veze ele já haviam se encontrado nas reuniões preparatória para formar a Orquestra Filarmônica da Fundação . Mas tudo não passou se simples conversas de trabalho. Agora, no bonde , encontravam-se a sós e longe dos olhares indiscretos da então sociedade tradicional que frequentava a Fundação. No bonde iniciaram um namorisco, que virou namoro sério com a discreta porém firme oposição do casal Souza. De nada adiantou a oposição pois o noivado aconteceu dez meses depois com a promessa que Bruce não voltaria aos Estados Unidos a não ser a passeio. Fixariam residência aqui. A Promessa tranquilizou a família Souza. O casamento aconteceu logo em seguida e o casal vivia plena e placidamente em Teresópolis. Nem mesmo uma visita a passeio aos Estados Unidos estava programada para curto prazo.
Foi então que Bruce começou a ter problemas de saúde. No princípio um quase nada e de repente virou coisa séria, tão séria que os médicos brasileiros o desenganaram. Não satisfeito com o diagnóstico realizado, mudou-se para os Estados Unidos com armas, bagagens e a esposa que àquela altura estava grávida. Os médicos americanos disseram que o assunto era sério mas não tão grave assim. Precisava de um tratamento intensivo nos Estados Unidos e um controle periódico da situação. Dessa forma o fixaram residência em Boston onde nasceu Susan e três anos depois Beverly
Isto aconteceu há vinte e seis anos e hoje Bruce está bem de saúde, morando em Boston e divorciado de Lenira que por sua vez mora com Susan em Washington,DC e Beverly alterna residência com os avós maternos no Brasil e seu pai. Todavia, em 1970 o casal Beaber ainda vivia junto e com as duas filhas em Prince of Wales,Maryland. Estavam lá temporariamente porque o Maestro desenvolvia em Baltimore o "Projeto Mozart" junto a Orquestra Municipal para Jovens. Devido a meu conhecimento prévio com o casal através da Comunidade Anglicana, fui convidado por eles a passar dois dias hospedado em Prince of Wales. A residência dos Beaber era uma típica casa americana de madeira branca, com pingadeiras no meio de um pequeno bosque. À noite dormi no sótãoo sono dos justos pois o silêncio chegava a doer os ouvidos! Acordei por volta de sete horas com o cantar dos pássaros e sentindo o cheirinho de ovos mexidos que estava sendo preparados. Por coincidência, naquele dia no estado de Maryland estava havendo uma espécie de consulta popular onde o povo manifestava seu desejo com relação a emendas em duas ou três Leis.
De retorno a Washington,DC tentei aproveitar ao máximo os dias que lá nos restavam caminhando pela cidade. As caminhadas iniciavam às nove horas da manhã e se prolongavam até às dezesseis hora quando o sol começava seu ocaso. Num daqueles dias estendi meus passeis até Arlington, Virgínia e lá alem de conhecer Miss Williams, nossa programadora de curso, visitei o Cemitério de Arlinton onde se encontram sepultados a maioria dos heróis deles. Ardia junto ao túmulo de John Kennedy uma chama eterna.
Um fato curioso, pelo menos para nós brasileiros, aconteceu comigo quando o táxi que me trazia de Arlinton a Washington,DC até o Presidential Hotel, meu ponto de destino. De acordo com as normas de cobrança por áreas vigentes na capital americana eu deveria pagar ao motorista três dólares e setenta e cinco centavos. Entreguei uma nota de cinco dólares e esperei o troco. Então, pela primeira vez ao longo daqueles seis meses ouvi a seguinte frase:"Eu não tenho troco. Será que o senhor não tem a quantia exata?" Respondi que não, mas se ele esperasse alguns segundos eu iria fazer troco na portaria do hotel. Para minha surpresa esta foi a resposta do motorista."Não senhor. É minha obrigação ter troco para lhe dar e se o senhor não dispõe da quantia exata, então nada me deve...."
Chegou o dia seis de novembro. Novas despedidas formais, promessas de cartões postais do Brasil e votos de bom desempenho nas tarefas que nos aguardavam.
De repente já estávamos no avião da Eastern Airlines que nos conduziria a Nova York, Aeroporto Internacional John Kennedy. Havia um enorme congestionamento aéreo e apos a aterrissagem ainda rodamos alguns quilômetros de limousine para chegarmos ao terminal da Pan American. Não esperávamos aquele transtorno e por isso não tivemos tempo nem de ir ao banheiro pois o avião já estava pronto para decolar. Quando chegamos ao balcão do check-in a atendente me disse: "O senhor sabe que neste voo também viaja o famoso "soccer player" Pelé?
Entramos no avião e creio que em cinco minutos procedeu-se os preparativos internos para a decolagem. Quando o avião já estava no ar, olhei pela janela e disse a Plauto: "Será que num dia voltaremos?"
Como Pelé viajava na primeira classe sequer o vimos mas, ele era sem dúvida o comentário preferido dos passageiros. O Voo foi muito tranquilo e lá pelas seis horas da manhã, já no horário brasileiro, descíamos no Galeão. O calor era insuportável agravado pelo fato de estarmos vestidos de acordo com o outono americano. Após passarmos pelos nosso amáveis fiscais alfandegários um carregador apressou-se para nos ajudar com a s bagagens. Quando chegamos ao local que pretendíamos no aeroporto entreguei uma nota de dez cruzeiros a título de gorjeta.Ele me olhou com um certo desprezo e exigiu o dobro. Não discuti e paguei. Então me dei conta que definitivamente havia regressado e que estava na hora de voltar a conviver com o "jeitinho", a "esperteza" e o calor. O outono havia terminado.
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