(Um livro de ficção publicado em capítulos)
Cap.11
"Aqueles a quem Deus uniu, ninguém os separe"
Na Semana Santa de 1972 fui para Santa Maria visitar meus pais e demais familiares como fazia habitualmente desde que havia mudado-me para Porto Alegre. Já estava desfrutando de um razoável padrão de vida mas, faltava alguma coisa que eu não sabia bem o que era. A luz vermelha apareceu com intensidade mas, logo apagou-se.
Nesta viagem, sábado à tarde, fui visitar minha avó materna e bastante descontraído passamos quase toda o tempo conversando. Minha avó era uma mulher fora de série e sempre estava aberta a novas ideias e à evolução da vida pois tinha sempre pensamentos positivos. Ela também gostava muito de cinema e sempre falávamos sobre filmes e artistas. Com ela assisti a muitas películas com Libertad Lamarque e Rita Hayworth, suas atrizes favoritas. Teve uma vida plena e o peso de seus oitenta e quatro anos a levou serenamente em 12 de agosto de 1977. Bem, mas voltemos a 1972. Naquele sábado quando deixamos a casa da avó resolvi passar pela residencia de uns tios de minha mãe que eu não os via há muito tempo. Durante a visita conversamos, entre outros assuntos, sobre minha vida, meu trabalho e minha recente viagem à Europa. Surgiu então a inevitável pergunta para um homem de 28 anos e solteiro: "Ainda não casaste?" E eu voltava com a resposta;" Ainda não encontrei a mulher certa". Diante de minha resposta, a tia-avó lascou:"Olha só, eu tenho uma amiga em Porto Alegre que é uma graça. Vou te dar o cartão de apresentação da mãe dela para fazeres uma visita..." Peguei o cartão e coloquei junto com outros na minha carteira. Conversamos mais um pouco e nos despedimos.
Alguns dias depois, já em Porto Alegre, e remexendo os cartões que tinha na carteira encontrei um como o nome Anita Chaves de Ruas com endereço e telefone. Pensei: "Qualquer dia ligo". Creio que se passaram mais ou menos dois meses quando num sábado o Mauro e eu estávamos sem programa e lembrei de telefonar para a casa de D. Anita, com o intuito de conhecer Olívia, sua filha. Olívia atendeu ao telefone e após me apresentar, conversa vai conversa vem, ela convidou-me para ir ao apartamento, onde residia com a mãe, para nos conhecermos. Acrescentou: "Se tiveres algum amigo disponível, convida-o a vir vir junto pois justamente estou aguardando a qualquer momento a visita de uma amiga . Seria interessante uma conversa os quatro.
Como, na verdade, Mauro estava mesmo sem programa topou o meu convite e disse: "Será melhor usarmos cuecas novas pois este programa pode dar cama". Já de 'briefs" zero quilômetro partimos para o apartamento que estava situado na Av Independência, próximo ao Teatro Leopoldina. Foi Olívia que abriu a porta e no primeiro olhar que deixei cair em cima dela algo dentro de mim percebeu que que aquele encontro não seria como tantos outros que eu tivera com garotas naquele tempo. O sorriso de Olívia impressionou-me logo de saída e, creio que a partir daquele momento muita coisa começou a mudar na minha vida e creia, a luz vermelha não piscou como seria de esperar...
Ao entrarmos no living fomos apresentados à D. Anita, a mãe, e à Leila, a amiga de Olívia. Olívia estava razoavelmente maquiada e Leila extremamente e parecia que ia a alguma festa. Mais tarde, Mauro e eu comentamos sobre a dúvida que estávamos: Convidamos para sair? Vai dar cama?"
O apartamento estava com poucos móveis, pois segundo D. Anita os mesmos estavam regressando de Campo Grande,MS, em decorrência de uma mal sucedida tentativa da família transferir-se para lá onde possuíam inúmeros parentes pantaneiros. Aos poucos fomos conhecendo aquelas pessoas que acabáramos de encontrar. Olívia era filha de Elizalde Galvão de Ruas, já falecido, e de D. Anita Chaves de Ruas. Ele, de Campo Grande e ela de Corumbá, onde ambos haviam casado. Logo após o casamento vieram morar no Sul do Brasil devido à transferência do senhor Elizalde que exercia as funções que hoje, creio, seria o que se chama de Fiscal de Tributos Federais. Assim, foram para Jaguarão, onde residiram algum tempo e onde nasceu o primeiro filho, Beato e depois o senhor Elizalde foi novamente transferido, desta vez para Rio Grande onde nasceu o segundo filho Pedro. O terceiro filho, na verdade uma menina, nasceu em Jaguarão quando foram morar lá pela segunda vez. Olívia, a quarta na escalada, nasceu em Porto Alegre, onde fixaram residência pois não houve mais transferências do pai e onde veio a falecer aos 70 anos.
Por outro lado, elas também souberam da nossa ficha e a minha você já sabe: Nascido em Santa Maria,RS filho de família de classe média que lutou pela vida para conseguir, entre outras coisas, que eu me formasse engenheiro. Por sua vez, o Mauro, de origem semelhante à minha nasceu em Rio Grande em 1943, acho que lutou pela vida mais do que eu pois com dezoito anos veio para Porto Alegre, sozinho, para trabalhar e prestar vestibular para engenharia. Hoje, nosso colega de empresa e também engenheiro.
Bem, mas naquela noite tudo ficou só em conversa e acabamos saindo do apartamento sem ter ido para a cama com as garotas.
Já na outra semana voltamos a nos encontrar, os quatro, e desta vez, com o beneplácito de D. Anita fomos apanhar Leila na casa dela para irmos a um "barzinho" (expressão tipicamente gaúcha, Edú). Mesmo com a cara torcida do senhor João, pai de Leila saímos e acabamos esticando a noite no Encouraçado, a excelente e famosa boate de Porto Alegre.
Ainda naquela noite não deu cama mas a relação começou a tomar outros rumos e passamos ao que, naquela época, chama-se namoro. Você deve estar perguntando: E a luz vermelha? Continuou apagada, te respondo!
O Mauro, como de diz, já firme com Leila e eu com idas e vindas com Olívia. No meio do caminho, apareceu a Tânia, professora de piano, com quem tive um breve romance. Lembro que uma determinada noite em agosto de 1972, Olívia telefonou-me às 11 horas da noite convidando-me para sair.. Secamente respondi que estava namorando com a Tânia e que não seria justo estar saindo com outra. Não era meu estilo. Na realidade eu queria mesmo sair com Olívia. Ela, voltando à carga disse: " Hoje sai comigo e passa a tua namorada para trás pois uma vez só não tem importância" Começamos e terminamos a noite no Concorde. Foi aí que tudo realmente começou....Mas, eu tinha que dar uma satisfação à Tânia e no domingo quando telefonei para ela a fim de combinar um cinema, seria o rompimento, a solução partiu dela mesma: "Hoje à noite eu não estou com vontade de sair. Estou tocando piano, Sabes o que estou tocando? A Marcha Fúnebre." Então respondi que estava bem e desliguei o telefone. Fim melancólico para um namoro sem sal e com uma mulher muito estranha.
Não pensei duas vezes e me dirigi ao apartamento de Olívia. D. Anita atendeu-me e disse que a filia estava na casa de Leila. Rumei para lá, onde o Mauro também estava e continuamos a fazer o que havíamos começado na sexta feira. Namoramos, os quatro, a até a uma hora da manhã.
A partir daquela data o namoro foi ficando realmente sério ao ponto de te-la levado a Santa Maria para conhecer meus pais e minha avó, cuja festa de oitenta anos participamos. Assim, resolvemos que iríamos "noivar" no dia dois de outubro daquele ano. Eu estava tão entusiasmado com com a ideia que cheguei a me submeter a um regime alimentar para perder os cinco quilos. E do noivado, passamos ao casamento e eu estava tranquilo pois a tal luz vermelha não mais aparecia. A cerimônia foi realizada na Igreja da Inglaterra em Porto Alegre no dia 27 de outubro de 1973, às dezenove horas com um ritual belíssimo e impecável segundo os convidados que participaram.
Em outubro de 1973, a Argentina tinha uma invasão muito grande de turistas e foi lá, mais propriamente em Buenos Aires que passamos nossa lua de mel. Foi a semana mais feliz da minha vida. Eu creio que numa lua de mel as pessoas se transformam e mudam até de fisionomia pois em quase todas as lojas e restaurantes que entrávamos sempre alguém nos perguntava: "Estão em lua de mel?"
Para mim, Buenos Aires que eu sempre a vejo e imagino em preto e branco é uma das melhores cidades do mundo e é uma gostosura suas ruas, cafés,praças e casas noturnas. O soberbo Michelangelo, as músicas de Aníbal Troilo.o "pichuque", Piazzola e o inimaginável Teatro Colón, onde assistimos a ópera "Adriana Cruvier", as carnes de "La Estância",..... Caminhar por Santa Fé e suas Galerias, Callau, Florida,Nove de Julho, Lavalle, e ainda algumas vezes ouvir, numa ou noutra loja, Amelita Baltar cantar "Balada para un loco" ou "Los paráguas de Buenos Aires. Era mesmo a felicidade! Eu queria que tudo aquilo não terminasse!....
Voltamos umas cinco ou seis vezes a Buenos Aires mas, agora já ninguém perguntava: "Estão em lua de mel?"
Próximo capítulo: "Vida em Família"
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