terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Capítulo 9

UMA MUDANÇA PARA MELHOR  

Quando desci do avião da Cruzeiro que me trouxe do Rio para Porto Alegre, encontrei alem dos pais e parentes, uma grande quantidade de amigos, e colegas de trabalho. Foi uma alegria revê-los pois seis meses no exterior era um tempo razoável para quem nunca havia saído do Rio Grande do Sul.

Naquela noite um casal de amigos proporcionou-me um jantar de boas vindas e para minha surpresa um dos convidados era o Dr Tertuliano. O jantar que era para ser festivo foi entremeado  de ameaças veladas disparadas  por Tertuliano. A ameça maior, em meio a conversas, era o fato de que eu seria despedido da TOPOHIDROCONSULT pois a GEOHIDRO acabara de comprar o controle acionário da nossa empresa e do corpo técnico só ele permaneceria. O resto seria sumariamente demitido.

No princípio eu fiquei preocupado mas, depois pensei: Não é possível que a GEOHIDRO vá dispensar dois técnicos rescém vindos do exterior e com uma bagagem excelente de conhecimentos. Bem, você sabe que a GEO não dispensou nenhum técnico e quando três semanas após  nosso regresso dos Estados Unidos fui chamado à sede da GEOHIDRO no Rio de Janeiro para prestar um Relatório ao Diretor da nova empresa,  Engº José Duarte de Limeira, sobre nosso curso no USNS.  Naquele dia ouvimos dele a afirmativa que dentro de alguns dias, mais precisamente em dois de janeiro de 1971 que seríamos contratados pela GEO com um excelente salário. E assim aconteceu: em 2 de janeiro a GEOHIDRO passou a contar em seu quadro com mais três  técnicos: Plauto, você e eu.
Nessa alturas corriam boatos de que Tertuliano seria transferido para Manaus  com a finalidade de montar um Escritório da GEO naquela cidade para atender a Região Norte do País.

As mudanças a partir de Janeiro ocorreram muito rapidamente e em meados de Janeiro, Tertuliano seguiu com armas e bagagens para o Norte do País. Soube-se mais tarde que ele nem chegou  a passar do Rio tal o cabedal de disparates  que ele espalhou no Escritório Central. Ora, em vista disso, criou-se um grande impasse: A GEO não o queria mais nem em Porto Alegre nem em Belem. Após marchas e contra marchas optaram pela permanência dele no Rio, face aos seus decantados contatos políticos. Porem, muito breve a sede da GEOHIDRO seria transferida para Brasília e assim carregariam Tertuliano para lá. A então sede no Rio seria transformada num Escritório Regional.

Com a saída dele de Porto Alegre a Regional ficou acéfala e  cabia ao Dr Limeira indicar um novo chefe para atuar no Sul do Brasil. Dr Limeira com sua tradicional cortesia e educação perguntou a Tertulianos qual era a opinião dele sobre o nome a ser indicado. Os nomes que estavam na pauta eram de Plauto e meu. A resposta de Tertuliano foi fulminante como um raio: Não indique nenhum dos dois! "Mas por que? inquiriu o Dr Limeira". "Porque nenhum dos dois presta". O Dr Limeira, com sua paciência mineira voltou à carga: "Como o senhor sabe, eu só disponho de dois nome em Porto Alegre e segundo me consta são muito bem preparados. Acabaram de voltar de um curso no exterior" A resposta de Tertuliano revelou a grande mágoa que, não sei porque, ele nutria sobre mim. "Então não indique o Ronaldo, coloque o Plauto"". Dr Limeira agradeceu e Tertuliano retirou-se da sala. Dr Limeira pensou: "este homem é doido e se ele indicou o Plauto, eu vou designar o Ronaldo". E desta forma, prezado amigo, a partir de março de 1971 quis o destino que, por por influência direta de Tertuliano, eu passasse a dirigir o escritório da Regional Sul que abrangia o Rio Grande do Sul e Santa Catarina.

Materialmente eu começava a entrar numa fase muito boa pois como chefe eu poderia tentar realizar tudo o que sempre sonhei para dar um tratamento adequado aos dados ecológicos e hidrológicos. Alem do mais, como funcionário da GEO o meu salário havia triplicado e em pouco tempo eu já começava até a pensar em comprar um Fusca, sonho de todo o brasileiro que melhora de vida.
As novas responsabilidades e a impossibilidade de realizar tudo o que desejava aumentou demais as minhas angustias e elas começavam a refletir-se nas primeiras rugas faciais  e no aparecimento dos primeiros cabelos brancos isso aos 29 anos. Tinha decisões duras a tomar. Era a vida! Era a realidade! Eu tinha que assumir. Uma luz que piscava em amarelo, às vezes mudava para vermelho. Esse é um outro lado da história...

Os duros fins de semana eram recompensados  pelos agradáveis fins de semana quando eu desfrutava da amizade e companhia do Mauro,  também engenheiro, que dividia um apartamento comigo,  e do Carlos Renato  e de sua irmã Hélène.
Nos sábados à noite, frequentávamos Mauro e eu, alguns bares e quase sempre acabávamos a festa na companhia de nossas inseparáveis companheiras Dulce e Romana. Essa situação durou aproximadamente um ano e nunca exigimos nada um do outro e terminamos como começamos, num clima de muita amizade. Talvez Romana nunca imaginou como foi importante em minha vida.

Eu vivia aquele período plenamente, intensamente e até realizei uma viagem de  trinta dias à Europa em fins de 1971 na companhia do Mauro, Carlos Renato e Hélène.  O Carlos Renato já estava Cachan, França, onde terminava um curso de seis meses em arquitetura de prédios públicos principalmente aqueles em construção no "La Defense", a nova París com ares modernos. Fizemos, os três, um voo sem escalas, Rio Londres, onde Carlos Renato já nos esperava para o tour.

De Londres, cruzamos o Canal da Mancha e aterrissamos em Zurich, uma das cidades mais bonitas do mundo  e por isso mesmo um dos locais que mais curti na viagem. Era estranho para nós ver os guardas de trânsito usando luvas brancas e os passageiros pagando a entrada para os bondes por meio de uma máquina e antes de subir no Coletivo. Após descerem, educadamente colocavam os bilhetes usados nas lixeiras colocadas nas estações de embarque e desembarque. Embora não houvesse fiscais todos os passageiros pagavam na máquina e a fiscalização era esporádica. Nas ruas, lojas, cafés, restaurante e  Coletivos as mulheres vestiam-se com muita elegância. Algumas com casacos de visón.

Ficamos hospedados no Hotel du Théatre" situado próximo à parte antiga da cidade. Passamos tês dias lá e Mauro e eu curtimos muito a noite de Zurich. Resolvemos, então, fazer uma curta viagem às montanhas nos arredores da cidade. No topo da montanha, ao descermos pelo teleférico. éramos seis pessoas: Carlos Renato, Hélène, Mauro, eu e um casal. A senhora perguntou-nos em bom português: "São brasileiros?""De que lugar do Brasil?" " Nós somos de Porto Alegre!!" Ora, a risada foi geral. Seis pessoas num teleférico nas montanhas de Zurich e brasileiros.... de Porto Alegre!  Era coincidência demais. Estivemos com o casal Lock durante o resto do dia. À noite, como ágape, num delicioso e inesquecível Fondue de Queijo.

Depois que regressamos a Porto Alegre tentamos contato com D. Edila e o senhor Amaury Lock. Porem eles nunca nos responderam a gentileza. São coisas que não entendo.

Ainda em Zurich apanhamos um carro já previamente locado e partimos para conhecer a tão decantada Europa. O Fiat super esporte, locado, conduziu-nos à Alemanha,Austria, Itália, França, Mônaco,Espanha e Portugal.

Durante a viagem tive alguns atritos com Carlos Renato pois ele defendia ferozmente  e sem restrições a cultura francesa eu contra-atacando com a cultura americana. Que estupidez! Sempre continuei achando que os americanos são muito práticos em tudo o que fazem e os franceses são teóricos e muito complicados. Reconheço que as discussões foram estéreis e não sei como como o Carlos Renato com alguns anos mais de experiência permitiu que aquilo fosse levado adiante. De qualquer forma, os americanos foram, até agora, os únicos que conseguiram colocar um homem na Lua.... Tecnologia.

O FIAT continuava rodando e ao entrarmos no Norte da Itália foi fácil observar que  entráramos num País latino. No primeiro restaurante que paramos, a cozinha não era visível ao público e os pratos utilizados voltavam para o mesmo lugar de onde saiam os alimentos para serem servidos e o banheiro há  muito tempo não era higienizado. Em países mais desenvolvidos, a cozinha está sempre à vista dos clientes e os pratos utilizados seguem para outro local que não a cozinha.

Prosseguimos a viagem para Roma onde conseguimos um hotel três estrelas onde provavelmente uma ou duas deveriam estar piscando ou apagadas dadas as condições do local. Esses contratempos foram recompensados pela beleza da Itália e pela exuberância de seu linguajar. Digno de nota é o Estado do Vaticano, encravado em Roma e exibindo belezas extraordinárias como a Pietá antes de ser danificada. Também destaco Florença com suas incríveis obras de arte como o David de Michelangelo e a quase indescritível Veneza onde foi possível olhar e sentir a Praça de São Marcos, onde Vitório de Sicca tomava seu capuchino, o Palácio dos Dodges, com as obras de Tinttureto, e os famosos canais onde táxis são barcos e ônibus são lanchas...

Ainda não havia eclodido  a crise (sic) do petróleo e abastecíamos o Fiat com gasolina "super".. Seguindo viagem nos dirigimos para a Espanha passando primeiramente por um local deserto por vários e vários quilômetros. Confesso que já estava entrando num processo angustiante quando avistamos uma espécie de posto de gasolina e restaurante. Paramos para tomar algo e a garçonete, que parecia a única habitante do local, lançou-nos um olhar como se fôssemos de outro planeta. Embora falássemos Espanhol ela parecia que fazia questão de não entender. Creio que ela sentiu-se aliviada quando o colocamos o carro em movimento.

Barcelona, Valencia, e Madrid  impressionaram-nos pelo gigantismo e agito das pessoas. Em todas elas havia homenagem ao "Generalíssimo"  colocando seu nome em praças, ponte, ruas, autopistas.....Os guardas de trânsito, por sua vez, ofereciam um espetáculo à parte pois dirigiam o trânsito de uma forma que pareciam toureiros! Foi de parar para assistir.

No rumo de Lisboa entramos num restaurante de uma pequena cidade para jantar. Creio que era o único da cidade e somente duas mesas estavam ocupadas e ao passarmos os quatro por uma delas, um garoto de mais ou menos nove ou dez anos  comentou em voz alta com o casal que estava junto: "Olhe papai quantas pessoas". Imagine essa frase como sotaque português de Portugal...
Em Lisboa, o Rocio a Praça dos Restauradores, bacalhau à Gomes Sá, lagosta ao termidor, uma subida de bonde à Lisboa Antiga e ao magnífico restaurante "O Forcado" que oferecia excelentes refeições e um belíssimo show de fados. Em todos os lugares públicos que estivemos havia um mapa de Portugal agregando todas as suas colônias e sobreposto a um mapa da Europa. Mostrava claramente um Portugal bem maior que a soma dos territórios de vários países europeus e abaixo uma inscrição: "A verdadeira dimensão de Portugal."

Ao deixarmos Lisboa fomos parados numa barreira de trânsito onde o policial pediu-nos os documentos do carro. Entregamos o contrato de locação e o policial o reteve  e mandou-nos prosseguir. Mauro que estava dirigindo o carro, intrigado com a situação, perguntou ao policial: E se em outra barreira nos peçam o documento, como faremos: O guarda foi rápido na resposta: "O senhor diz que já entregou, pois". Vendo nossa cara de espanto entregou-nos um  folheto educativo de trânsito. Lemos as recomendações sendo que na última estava escrito: "e onde se ler 'stop', é mesmo para parar!"

No dia vinte e quatro de dezembro de 1971 o Fiat nos conduzia até Paris. Alguns quilômetros antes da "cidade luz" resolvemos parar num acolhedor restaurante para saborear um "croc monsegneur". Ótimo! Na saída, Mauro necessitou ir ao toillete e ao voltar disse: "sabem como é a instalação sanitária deste local? É uma espécie de "casinha" com um buraco no chão e sem papel higiênico". Isso, a poucos quilômetros de Paris.

Na noite de Natal, após nos instalarmos num razoável hotel em Porte d'Orleans, fomos jantar um "osso buco" no restaurante "La Chaumiére" no Quartier Latin.  Uma beleza Paris na noite de Natal. O movimento no Quartier era intenso e ainda pudemos chegar ao "Champs Elysées" e admirar sua perspectiva iluminada. Indescritível!

Quando entregamos o Fiat na agencia francesa da "Maggiore" recebemos em dinheiro a quantia equivalente à quantidade de gasolina que restara no tanque.  Àquele procedimento recebeu o seguinte comentário de Hélène: "Acho que a França é o menos latino dos países latinos..."

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