terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Prezado Eduardo - Cap. 7 - A DEPRESSÃO

A DEPRESSÃO

Na medida em que os assuntos iam se esgotando, começamos a perceber em você o início de uma leve depressão pois volta e meia retornava o assunto que mais o amedrontava: o nosso regresso ao Brasil marcado para o dia sete de novembro daquele ano de 1970. O motivo seria a sua permanência sozinho nos Estados Unidos por mais algum tempo. Não sei se você lembra que por sua vontade não veio conosco em maio porque queria assistir ao vivo a "copa do mundo de futebol" que se desenrolaria no México. Tentamos várias vêzes convencê-lo de que a coisa não seria assim tão difícil mas você quase sempre se mostrava irredutível.

A situação às vezes se agravava devido à completa desilusão que você estava tendo com o trabalho. Definitivamente concluímos que o seu tipo de atividade era muito mais voltada à pesquisa matemática e estatística puras do que trabalhos práticos. Entretanto, não era possível mudar o rumo das coisas pois tudo havia sido acertado para um tipo prático de trabalho e os americanos  não costumam "dar um jeito". Assim, em vez de ter solicitado ingresso na Universidade de Illinois, você optou por experimentar o lado dos avanços tecnológicos pois aí estavam as nossas carências. Desta forma, continuamos com o Programa já estabelecido para nós três.

Você também nos trouxe uma notícia boa pois falava-se no Rio que a GEOHIDRO S.A. havia adquirido o controle acionário da TOPOHODROCONSULT a qual pertencíamos. Isto significava um substancial aumento dos nossos salários alem do que passaríamos a ter um vínculo empregatício dentro das normas legais. A nova Empresa surgida era forte e trabalhava em âmbito nacional. Conversávamos muito sobre o Brasil e o que iríamos produzir lá utilizando nossos conhecimentos de última geração. Os sonhos eram muitos: um apartamento melhor, um carro, casar com uma linda brasileira.... Mal imaginávamos o movimento sinistro e autoritário que iria acontecer pouco depois de quinze de março de 1974.

Mas, os fins de semana não não se resumiam só a conversas  pois assistimos vários espetáculos teatrais quando estivemos em Chicago mais uma vez e agora junto com você. Os destaques ficaram, para um espetáculo com Ella Fitzgerald e o especialmente fabuloso "HAIR"

    "Let's  the sushine.....When the moon is in the seventh house..."

Após termos cumprido nosso programa no estado de Illinois dirigimo-nos para uma curta permanência em Madinson, Winsconsin. Lá o trabalho seria um pouco diferente pois você permaneceu nos escritório estudando alguns processos estatísticos sobre enchentes enquanto Plauto e eu desenvolveríamos alguns trabalhos de campo. Assim, Plauto foi designado para acompanhar  e instalação de um "cable car" que atravessaria a seção transversal de um rio para medições de vazão em cotas muito altas e eu ajudei na instalação de uma "calha Parshall" para medições de vazões muito pequenas  e em águas extremamente baixas.
Durante uma semana só nos encontrávamos à noite e extremamente cansados não tínhamos quase tempo de conversar. Durante a instalação  da "calha" trabalhei com um colega que estivera  no Vietnan e num dia frio ele me emprestou um capote que ele usara durante a guerra. Bill era um sujeito muito quieto mas muito revoltado e não escondia suas posições de esquerda. Naquele tempo, eu ainda estranhava uma manifestação aberta daquele tipo. Foi com Bill que eu aprendi a expressão "WASP", ou seja: White, Anglo-Saxon e Protestante,ou seja: Branco,Anglo Saxão e Protestante. Ora, eu mesmo era esquerda moderada, branco, e protestante, mas nunca concordei que  só eram confiáveis os WASPS. Alguns americanos pensavam assim mas, certamente eram uma minoria pois nunca fomos alvos de discriminação.

Estávamos agora de partida para Ocala, Florida e o seu suor e olhar tenso indicavam que o avião ainda não havia atingido os três minutos de voo que, segundo suas palavras, eram críticos pois qualquer falha aquele período de tempo não permitiria o avião manter-se no ar. Eu achava aquilo um tanto engraçado mas, em todo o caso respeitava sua opinião. Quanto mais nos aproximávamos da Flórida a sua tensão aumentava pois também estava mais próxima a data do nosso regresso ao Brasil.

Em Ocala, Flórida, a aridez da tensão foi substituída pelo oásis do relaxamento. Claro que você deve lembrar! Chegamos de manhã cedo no escritório local do USNS e de saída fomos carinhosamente recebidos pelo sorriso de Dorothy ou simplesmente Dotie, como ele gostava de ser chamada. Todo pessoal do escritório era muito gentil e desta forma ficamos completamente à vontade. No serviço você resolveu nos acompanhar em alguns trabalhos de campo. e pareceu-me que não achou tão ruim assim. Lembro que também que desenvolveu alguns estudos de modelos matemáticos com Carl, o especialista deles nessa área.

Vocês se pareciam muito: durante o dia ávidos por estatística e modelos matemáticos e à noite músicos. "Que bom que o Edú se entrosou, pensava eu".
As coisas ficaram ainda melhores quando, ao regressarmos ao escritório, numa tarde, Dotie desculpando-se de um convite seu para sair  à noite disse:"Desculpe-me, mas eu estou  noiva e você certamente compreende a situação. Porem vou apresenta-lo a nossa colega Peggy, que acabou de chegar de um serviço de campo. Tenho certeza de que ela ficará encantada em sair com você".

E assim foi feito. Peggy  nos foi apresentada! Era uma garota loira, estatura mediana e muito bem feita de corpo. Você ficou de boca aberta e parede que se apaixonou de saída. Como previsto, ela aceitou seu convite e dirigiu-se a mim perguntando  se eu gostaria de ir junto pois ela tinha uma amiga que sem dúvida aceitaria sair comigo.

Combinamos que elas passariam no hotel às 8:30 da noite para nos apanhar. Lembro bem que quando ela se afastou  dizendo "até logo", ficamos os dois  olhando aquele caminhar meio desajeitado, com um corpo muito bem proporcionado enfiado dentro de uma calça jeans. "Que graça!" foi a sua expressão.

Às 8:30 um Mustang estacionou na porta  do hotel e dentro dele estavam Peggy e uma outra loira. As apresentações foram formais e Cathy era quase da minha altura. Muito bonita tanto de rosto quanto de corpo. Como estávamos os quatro preparados para jantar  fomos conduzidos até um restaurante  chamado"1825 House". Ficava situado na Main Street nº 1828.Mas o nome do local não se devia somente ao endereço mas também à decoração interna. O estilo reproduzia exatamente a época de 1825 diziam eles. O alimento era delicioso, precedido por Daiquiris e seguidos de vinho da California. Talvez por isso, ficamos todos mais desinibidos e elas logo nos colocaram apelidos: Ed e Ron. Em contrapartida Peggy foi apelidada de Patinho e Caty de Brisa Loira. Mais tarde percebi que ela poderia ter sido apelidada de Ventania Loira, dependendo das circunstâncias.

Após o jantar, fomos dançar no Talahasse Nigth Club, uma casa noturna em nada diferente das nossas. Foi um acerto total e depois dos primeiros minutos de rostos colados já estávamos aos beijos. Lá pelas tantas chegou a tradicional hora de elas irem no "Elas" e nós no "Eles". Voltamos primeiro  e naquele momento estávamos tão envolvidos por elas que nem falávamos um com o outro. Ao regressarem elas não chegaram a sentar-se e Peggy disse algo como:"vamos continuar desfrutando".

O Mustang dirigiu-se placidamente para o "Silversprings Inn" situado nas margens  do lago formado por uma vertente de água subterrânea em terreno calcareo e por isso com águas extremamente transparentes e límpidas. No resto daquela noite Edú você foi acolhido nas asas do patinho e eu ora sentia uma brisa ora sentia uma ventania...... loira.

Durante o período que estivemos em Ocala era raro o dia em que não saíamos com Peggy e Cathy. Elas eram sensacionais: Peggy ,21 anos, estudava engenharia e trabalhava no USNS tanto em serviços de campo como em serviços de escritório.Morava só num apartamento e os pais tinham uma pequena granja nos arredores de Orlando,Florida. Cathy, 20 anos morava com a avó, estudava Psicologia e trabalhava como Auxiliar de Conselheira na "Holly Family High School". Eram assim, típicas representantes da nova mulher americana: emancipadas,responsáveis,com iguais oportunidades de emprego e salários que naquela época começava a surgir nos Estados Unidos.

Lembro agora aquele agradável fim de tarde  e início de noite em que Cathy nos esperava  na saída do escritório.Ela nos convidara, os quatro, para circularmos juntos no Bowling Green Mall pois tinha algumas compras a fazer. Entramos no carro e rumamos para o Sudoeste onde estava situado o Mall. Para que se tenha uma ideia do que era o "Shopping" somente uma das lojas que o compunham devia ter a dimensão do nosso "Centro Comercial da Azenha" Era um dos maiores que eu já havia visitado. Podia-se adquirir no Mall tudo o que se pode imaginar sem falar na belíssima e gostosa Praça da Alimentação e dos cinco confortáveis cinemas.

Passamos primeiro numa loja feminina onde Cathy adquiriu algumas peças de roupa. Depois fomos ao Supermercado para comprar os ingredientes para o jantar que iria ser preparado a oito mãos! Elas não eram adeptas de fast food ou TV Dinner e assim adquirimos carnes,verduras e frutas. Após, andamos mais um pouco dentro do Mall olhando uma coisa ou outra Peggy então sugeriu que entrássemos numa loja de discos e assim percebi que Peggy era apreciadora de música erudita. Dirigimo-nos ao sub solo da loja "The sound of Music". O local era deslumbrante. Havia à disposição dos fregueses dez cabines de som  com lugares confortáveis,tranquilos e à prova de som para cinco pessoas em cada uma delas. Os equipamentos eram de primeiríssima qualidade e você poderia ouvir, confortavelmente instalado, as músicas previamente selecionadas fora das cabines,isto é, no setor de atendimento personalizado. O setor contava com dez jovens entre homens e mulheres  que atendiam e prestavam informações sobre as músicas solicitadas. Estivemos lá dentro por mais de uma hora e confesso que não estava com vontade de sair. Lembro que ouvi alguns trechos das obras de Mozart, li alguma coisa sobre Kehel, o organizador de sua obra, Beethoven, Shostacovitch e Ravel, meus compositores favoritos, Peggy adquriu  "Sherazade" de Rimski-Korsacov e partimos, os quatro, para a casa de Peggy que carinhosamente ela chamava de "my place". Um apartamento pequeno mas decorado com a graça e a personalidade da dona.

Tomando "Bourbon" do Tenessee nos aconchegamos  numas almofadas e desfrutamos  os quatro movimentos do mais novo componente da discoteca de Peggy. Parecia que o sonho não iria acabar.

O nosso envolvimento com Cathy e Peggy se tornara por demais sério e na medida que se aproximava  o dia da minha partida uma angustia ia tomando conta dos quatro. Elas chegaram a propor que não voltássemos para o Brasil mas, sabíamos que aquilo seria quase impossível. Ah, se eu soubesse o que aconteceria ao nosso País  e particularmente a nós,a partir de 1974, eu teria movido mundos e fundos para lá permanecer para sempre. Conseguimos prolongar aquele estado de coisas mais do que esperávamos pois mesmo depois de nossa partida  de Ocala para Tampa, meu derradeiro lugar do treinamento, tivemos o convívio de Cathy e Peggy por mais algum tempo. Acontece que Tampa ficava cem quilômetros distante de Ocala e isso permitiria que nas sextas-feiras à noite o Mustang nos trouxesse alegria. Você desfrutou aquela alegria por mais tempo pois permaneci em Tampa junto com Plauto somente mais três semanas. O dia sete de novembro de 1970 aproximava-se inexoravelmente e Plauto e eu deveríamos  viajar para Washington, DC a fim de preparar o Relatório Circunstanciado de Final de Curso. Foi duro para mim dizer adeus a Cathy naquele dia de Holloween! Você foi ótima meu amor, você foi maravilhosa! Como fui feliz  naqueles dois meses.... dois meses de num oásis de sol, paz, brisa e ventania.

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